Sobre paixões... #00231

E se apaixonar-se fosse menos um encontro e mais um estado?

Talvez a paixão não seja exatamente sobre o outro, mas sobre o que acontece dentro de quem sente. 

Um tipo de suspensão. 

Algo próximo de uma embriaguez que pode elevar, inspirar, dar cor e, ao mesmo tempo, reduzir o senso crítico. 

Não porque a pessoa “quer se enganar”, mas porque, nesse estado, a lucidez costuma ceder espaço à vertigem.

Quando estamos apaixonados, tendemos a ver mais do que está ali. 

Projetamos, completamos, inventamos.

Não há má-fé. 

O desejo trabalha rápido e a imaginação coopera. 

O outro vira promessa, símbolo, resposta antecipada. 

A pessoa real ainda está lá, mas encoberta por uma camada de expectativa.

Talvez por isso tudo pareça tão intenso no início. 

Não necessariamente porque seja profundo, mas porque é absoluto. 

Nesse estado, o julgamento se desloca. 

Aquilo que antes soaria estranho passa a ser compreensível. 

O que incomodaria vira detalhe. 

O que exigiria conversa vira silêncio tolerável.

Mas será que toda intensidade é sinal de verdade?

Há paixões que se alimentam mais da necessidade do que do encontro. 

Mais da vontade de possuir, fundir ou ser validado do que de conhecer alguém como ele é. 

Nesses casos, a intensidade não revela conexão. 

Revela urgência.

Quando se está embriagado, tudo vira sinal.

Um gesto mínimo ganha peso excessivo. 

Um silêncio vira mensagem. 

Nada é neutro.

E isso cansa. 

Porque manter esse estado exige vigilância constante e muita interpretação.

Talvez relações que se sustentam não dependam dessa exaltação contínua. 

Talvez precisem de algo menos espetacular e mais raro: chão compartilhado. 

Duas pessoas que conseguem existir sem maquiagem emocional. 

Que não precisam inventar versões melhores de si para serem aceitas. 

Que não exigem que o outro esteja sempre fora de si para que a relação funcione.

E então surge uma pergunta incômoda:
quando a paixão passa, o que fica?

Se, antes mesmo de existir um relacionamento, já há muito a justificar, relevar ou perdoar, isso aponta para quê? 

Um amor em formação ou um pedido silencioso de sobriedade?

Talvez nem toda atração queira futuro.
Talvez nem todo recuo seja medo.

Às vezes, pode ser apenas a lucidez voltando ao lugar.

Não como regra.

Não como moral.

Talvez só como um convite a amar sem se perder.

Ou, pelo menos, a desconfiar quando perder-se passa a parecer requisito.

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