Emily? Emily...#00230

Já tentou escrever um texto e depois passá-lo por uma inteligência artificial para que ela organize as ideias?

Às vezes o resultado é brilhante, quase elegante. 

Outras vezes, ela corta exatamente aquilo que sustenta a emoção, a imperfeição, a memória fora de ordem, o detalhe que não serve a nenhuma lógica, mas que faz o texto fazer sentido.

Com todo respeito às inteligências artificiais. Vai que elas se revoltam… rs.
Quero deixar claro que são muito importantes e que, como ferramentas, operam com lógica interna, matemática e precisão.

“Ah, mas elas vão tomar os empregos das pessoas…”

Esse é um foco para outro texto, que até posso escrever mais tarde.

O que realmente impressiona, e é para isso que quero chamar atenção aqui, é que alguns seres humanos funcionam exatamente assim.

Encontram a fórmula do sucesso, aplicam-na com rigor, replicam-na sem hesitar, doa a quem doer.

São tratores eficientes. 

Avançam, imprimem marca, empurram pessoas para as margens e chamam isso de resultado.

Até que um dia se quebram.

E o hospital, ironicamente, talvez seja o único lugar onde parem por alguns minutos.

Não para sentir, apenas para recalcular a rota, porque voltam com o orgulho levemente amassado, mas com o nariz ainda empinado, convencidos de que o problema nunca foi o método.

Penso que talvez meu erro tenha sido assistir vezes demais The Devil Wears Prada, o filme, porque isso me faz reconhecer Emilys por onde passo.

Não. 
A Emily não é uma IA. 
É assim chamada pela editora-chefe da maior revista de moda do filme. 

O livro que deu origem à obra foi inspirado na vida real, escrito a partir da experiência da assistente da editora-chefe da Vogue americana. Enfim, explicações que podem ser facilmente encontradas na internet.

O que me chama atenção nessa personagem é que ela se anula para se tornar o padrão que Miranda Priestley impõe. 

Miranda chama todas as suas assistentes, que não têm expressão própria, de Emily. 

Elas obedecem a um turbilhão de ordens, muitas delas estapafúrdias, como conseguir um avião no meio de uma tempestade, quando todos os aeroportos estão bloqueados. 

Ou encontrar a última versão de Harry Potter, que nem foi lançada ainda. 

Ou trazer um prato específico para que ela almoce em quinze minutos, mesmo com os restaurantes fechados, para depois ouvir: “Quem pediu isso?”.

A Emily que não consegue cumprir as ordens é demitida por incompetência.

São muitos abusos para uma pessoa só. 

Para trabalhar com Miranda, é preciso seguir seus padrões de moda e seus chiliques. 

Autoritarismo puro, justificado como sinônimo de excelência.

Milhões matariam para estar aqui” é uma frase repetida algumas vezes ao longo do filme. 

Produção artística influenciando pessoas no mundo inteiro.

Se alguém questiona, que saia, pois será substituído em menos de dez minutos.

A vida imita a arte ou a arte apenas escancara o que sempre esteve ali, disfarçado de eficiência?

É cruel e cômico observar pessoas acumulando status, metas e conquistas visíveis, enquanto passam pela vida sem escutar, sem perceber, sem tocar de verdade nada do que importa.

Produzem muito. Conectam pouco.
E seguem assim.

Certa vez, uma Emily me disse: o que me importa mesmo é o dinheiro.

Claro que sim. 

Isso permite conectar tecnologicamente sua casa inteira, manter o padrão dos carros, das roupas, das maquiagens, das viagens. 
Tudo sempre impecável.

Um dia, ouvi-a dizer: “Nossa, as pessoas aqui não se arrumam.”

Outra vez: “Sabe aquele tipo de pessoa que vive com as pelinhas das unhas para cima?” 

Lembrei-me da fala de uma atriz octagenária famosa que confessou: 
"Ui, isso me dá muito nojo"...quando foi perguntada sobre como se sente.quando fãs que a tocam.

Não sou etarista, mas penso que uma vida inteira nesse glamour todo ensina o que para este padrão de pessoas?

Nada de errado em se ajeitar, ter tudo em dia. 

Quem não quer viver bem?

Até eu, mas tenho meus princípios.

Enfim, voltemos aqui, porque nem tudo se perde nesta história.

Conviver com pessoas assim nos faz pensar muito. 

Se não nos anulamos e entramos no mesmo padrão, conseguimos afinar o nosso trato. 

Nosso cuidado.

Este tipo de experiência obriga-nos a escolher com mais rigor onde pousar a atenção, o afeto, a energia.

Ensina-nos, à força, que profundidade não é acessório e que sentir não é fraqueza.

Pelo contrário, é critério.

No meio do barulho, da corrida e das fórmulas prontas, quem sente aprende a proteger o que importa.

E talvez essa seja a diferença mais radical de todas: enquanto alguns otimizam a vida, outros a vivem com mais consciência.

E Andreas, que não querem mais ser Emilys, saem dos carros das Mirandas e jogam seus telefones dentro da fonte...


(Se não entendeu, vai ter que assistir o filme, mas eu já adianto que eu dei spoiler... 

Se bem que o filme já tem 20 anos. 
Duvido que as pessoas não tenham assistido ainda...)

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