(Ir)Responsabilidade afetiva #00205
Ele me buscou em casa como quem cumpre um compromisso qualquer.
Disse que queria conversar, que seria bom caminhar um pouco. Escolheu o parque.
O mesmo da minha infância.
O mesmo onde eu aprendera a confiar no mundo sem pensar muito.
No caminho, falou pouco.
Eu ainda acreditava que o silêncio era só cansaço.
Ele preferiu me levar ao parque das minhas memórias de infância
para me mostrar que a vida adulta é mesmo cruel e sem piedade.
Escolheu o lugar onde eu enxergava a vida em cores
para me deixar ali com memórias gris.
Sentamos num banco que eu conhecia bem demais.
Foi ali que ele terminou comigo.
Não houve preparo, nem cuidado.
Nenhuma frase que merecesse ser lembrada.
Tanto que não lembro.
Só sei que aconteceu.
Descobri depois, não muito depois daquele momento, que ele já estava com outra pessoa.
Ela era parecida comigo, disseram.
Mas tinha sido casada.
Herdara a casa do casamento.
Tinha estrutura, estabilidade, um chão pronto.
Para ele, era mais vantajoso.
Pouco tempo antes, ele ainda dizia que me amava.
Disse o mesmo a ela logo em seguida,
com a naturalidade de quem repete um hábito
que já não exige presença.
Antes de me deixar, ele sumiu.
Não atendia minhas ligações.
Não ligava de volta.
Planejava a ausência como quem organiza uma mudança.
Quando reapareceu, já tinha escolhido o cenário.
Não foi casual.
Foi cálculo.
Escolheu o lugar da minha infância para me abandonar.
Como se fosse importante manchar o que ainda era intacto.
Como se não bastasse ir embora —
fosse preciso retirar também o chão simbólico,
o retorno possível,
o abrigo da memória.
Ali, onde eu corria sem calcular perdas,
ele me ensinou que nada permanece intacto.
Que até os lugares mais seguros
podem ser usados como cenário de abandono.
Eu entendi então — sem formular em palavras —
que havia pessoas que não apenas vão embora:
elas retiram os lugares.
Depois daquele dia, o parque nunca mais foi só um parque.
Era um território ocupado por um rompimento insosso,
sem explicações,
sem responsabilidade afetiva.
Um lugar onde nada de grandioso aconteceu,
mas tudo se perdeu.
Com o tempo, fui percebendo um padrão.
Meus lugares favoritos não sobreviviam
às pessoas que eu amava.
Era como se precisassem destruí-los
para garantir que eu não tivesse para onde voltar.
Como se o mundo tivesse que acabar com meus refúgios
para não correr o risco
de me ver retornar inteira.
Não lembro do que foi dito naquele banco.
Mas lembro do que ficou.
A sensação de que eu nasci
para ser abandonada
exatamente onde me sentia em casa.
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