Laisse tomber...#00209
Deixei para trás as mentiras
que me contaram a vida inteira
e que eu carreguei como quem carrega cobertor fino no frio:
não esquenta,
mas ilude.
Deixei pra trás o "releva, que sua mãe é doente"...
Deixei para trás
a meia-calça que a tia compra
"quando cair o dinheiro da aposentadoria".
Deixei para trás o “vai com a tia que logo o papai vai te buscar”,
o logo que nunca chegou,
o tempo elástico que sempre se rompia do lado mais fraco: o meu.
Deixei para trás
o “vá com essa mulher, é só um lar temporário”,
as casas que nunca eram casa,
a ideia de que o provisório dói menos.
Deixei para trás
o “tudo vai ficar bem”,
dito por quem não pretendia ficar
para ver.
Deixei para trás
o “não quis ficar com você
para não magoar a outra pessoa que também me queria”,
como se eu fosse o dano aceitável,
o sacrifício lógico.
Deixei para trás
o “eu te amo tanto”,
dito ao mesmo tempo em que amava outras,
preferia outras,
escolhia outras.
Deixei para trás
o “eu te amo do jeito que você é, mas…”,
porque tudo o que vem depois do “mas”
não é amor,
é correção.
Não carrego mais promessas adiadas,
afetos divididos,
cuidados condicionais.
Deixei para trás
as mentiras que me ensinaram a esperar pouco,
a aceitar migalhas,
a confundir sobrevivência com amor.
Agora sigo
mais leve não porque doeu menos,
mas porque decidi não levar comigo
o que nunca foi verdade.
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