O Banquete - da Embriaguez à Lucidez #00232

Um grupo de homens se reúne para um banquete e decide fazer algo aparentemente simples: falar sobre o amor. 
Cada discurso revela um modo diferente de compreendê-lo, como se o amor pudesse ser percorrido em degraus.
No início, ele aparece como atração física. 
Amor como desejo pelo corpo, pelo prazer, pela beleza visível. 
É intenso, arrebatador, mas instável. 
Vive do impacto imediato e se alimenta do excesso.
Depois, o amor se desloca do prazer para o valor. 
Passa a ser visto como força que inspira coragem, feitos nobres, honra e sacrifício.
Já não é apenas impulso.
Torna-se virtude moral, algo que eleva quem ama.
Em seguida, surge uma ideia mais profunda e perigosa: a de que o amor nasce da falta. 
Ama-se porque algo parece ausente, quebrado, perdido. 
O outro passa a carregar a promessa de completude, como se fosse capaz de restaurar uma unidade original. 
Aqui, o amor deixa de ser encontro e começa a flertar com a dependência.
Mas o movimento não para aí. 
O amor também é entendido como impulso criativo. 
Ele não quer apenas possuir, quer gerar. Produz filhos, obras, ideias, cidades, leis. Move o ser humano a deixar marcas no mundo. 
Já não se esgota no outro. 
Expande-se.
Até que se revela como caminho de ascensão. 
Começa no corpo, passa pelas pessoas, pelas ideias, pela organização da vida em comum, pela justiça, até alcançar a contemplação do que é verdadeiro e belo em si. 
Nesse ponto, o outro não é o destino final. 
É o meio. 
O amor não se fixa; ele conduz.
A conclusão é clara e incômoda: o amor não é o objeto amado. 
É a força que empurra o ser humano para fora da ignorância, da repetição e do apego cego. 
Quando alguém confunde o outro com o fim da jornada, o amor se degrada em fixação, ciúme e ilusão.

Em termos diretos e atuais:
a paixão é o primeiro degrau.
Ficar preso a ela é estagnação.
Maturidade é subir a escada.

A paixão não é condenada. 
Ela é apenas situada. 
O erro não está em senti-la, mas em transformá-la em destino.
A paixão costuma chegar como excesso. Tudo pulsa, tudo chama, tudo parece urgente. 
Ela aproxima, acelera, cria foco. 
Mas também turva. 
Nesse estado, os erros do outro são relativizados, explicados, maquiados. Não por sabedoria, mas porque se está embriagado. 
As falhas não desaparecem. 
Apenas ficam fora de foco.
O problema não é a paixão existir. 
É permanecer nela como se fosse o ponto final.

Quando a excitação baixa e os pés tocam o chão, algo decisivo acontece: ou a relação se dissolve, ou se transforma. 
É aí que a paixão pode, ou não, virar amor.

O amor não nasce da cegueira, mas da lucidez. 
Ele começa quando o outro deixa de ser projeção e passa a ser visto como é: com limites, contradições e falhas reais. 
E então surge a pergunta silenciosa que define tudo: o que fazer com os erros que agora posso enxergar?

O amor que sustenta não é o que ignora o erro, mas o que impede que ele se alastre. 
Não transforma falhas em espetáculo, nem em arma. 
Não usa o deslize como identidade permanente. 
Ele contém. 
Não por medo, mas por escolha.

... o amor cobrirá uma multidão de pecados, diz o texto sagrado.

Cobrir, aqui, não significa esconder.

Significa impedir que o erro se multiplique em humilhação, vingança ou destruição do vínculo. 

É lidar com a falha sem permitir que ela contamine tudo. 

É responder ao erro sem reproduzir o mal que ele carrega.

Mas isso só acontece quando a paixão aceita morrer como centro. 

Quando já não é preciso intensidade para se sentir vivo, nem drama para sustentar o laço. 

Quando a relação deixa de depender de estar fora de si e passa a exigir presença inteira.

Nem todo erro deve ser coberto.

Há falhas que pedem limite, afastamento, ruptura. 

Amor não é tolerância cega.

É discernimento com responsabilidade. 
Só cobre o que pode ser transformado. 

O que ameaça a dignidade precisa ser interrompido, não acolhido.

Por isso, transformar paixão em amor não é elevar o sentimento.

É rebaixar o ego.

É sair do estado alterado e escolher permanecer.

Não porque é fácil, mas porque é real.

A paixão embriaga.

O amor sustenta.

E quando o amor aparece, não é porque os erros desapareceram.

É porque deixaram de governar.

Talvez seja isso...

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