Ruídos...#00224

O refluxo da resposta
Existe gente que não escuta.
Não por deficiência física ou intelectual, 
mas por incapacidade de sustentar o silêncio do outro.
Quando alguém fala para existir,
o outro responde para não desaparecer.
Para sobrepor
Para vencer o debate que nem se formou
Por que a escuta para estas pessoas é entendida como ameaça.
E, diante da ameaça, o saber sobe,
não digerido, não elaborado,
em forma de refluxo discursivo.
Não é troca.
É defesa.


Regurgitar não é comunicar
Regurgitar referências, conceitos, soluções prontas
é uma forma elegante de interromper
A fala do outro
O pensamento do outro...

Quando a dor ainda está quente
e já é devolvida organizada, explicada, enquadrada, 
Amostra de que não foi compreendida,
porque o ouvinte entendeu ruído e
não suportou não saber o que fazer com ele.

O que era expressão viva vira matéria-prima morta
para uma simples performance de inteligência.


Incipiências
Nem toda fala pede resposta.
Algumas pedem apenas contenção.
Mas há quem confunda escuta com oportunidade.
O outro fala
e isso é lido como convite para regurgitar tudo o que se sabe.
Não para ajudar,
mas para dizer silenciosamente:
“olha o que eu sei”
E você, não...

Escutar exige digestão
Escutar é metabolizar o que entra.
Leva tempo.
Silêncio.
Desconforto.
Quem não digere, regurgita.
E o refluxo intelectual costuma vir disfarçado de cuidado,
mas tem gosto de invasão.
Talvez o mais difícil
Não é falar bem.
É aguentar não falar.
Não é saber muito.
É não transformar o outro em pretexto para exibição.
Talvez a verdadeira escuta seja isso:
permitir que a fala do outro termine
sem precisar subir de volta em forma de resposta.

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