Águas de março #00263

Quando começaram as chuvas de março, ninguém na casa comentou.
Todo ano era assim. O céu escurecia de repente no meio da tarde, o vento levantava folhas secas, e logo depois a água caía pesada, lavando ruas, calçadas, telhados.
Para muita gente, era só o fim do verão.
Para Rosa, era outra coisa.
Desde criança, ela tinha aprendido a medir o tempo pelas chuvas de março. Não pelos calendários, nem pelos aniversários. Pelas coisas que já não estavam mais ali quando a água começava a cair.
Um ano tinha sido a mangueira do quintal que o pai cortou porque estava velha. Outro ano foi o cachorro que não voltou mais depois de sair pelo portão.
Mais tarde vieram perdas maiores.
Uma vizinha que sempre sentava na calçada ao entardecer. Um irmão que mudou de cidade e nunca mais voltou a morar perto. Depois a mãe, cuja cadeira ficou vazia na cozinha.
Março sempre chegava depois.
Naquela tarde, Rosa estava sentada perto da janela quando a chuva começou outra vez.
A água batia forte nas telhas, escorria pelas calhas, juntava pequenas correntes na rua. O cheiro de terra molhada entrou pela casa aberta.
Ela ficou olhando por um tempo.
Percebeu que, ao longo dos anos, sempre tinha entendido aquelas chuvas como um tipo de despedida. Como se março viesse para levar embora o que já estava acabando.
Mas, observando melhor, notou outra coisa.
As plantas no quintal estavam mais verdes do que semanas antes. O chão seco finalmente recebia água. As sementes que ninguém via começavam a trabalhar em silêncio.
Talvez março não fosse apenas o mês em que certas coisas terminavam.
Talvez fosse também o mês em que outras começavam, sem fazer barulho.
Lá fora, a chuva continuava caindo.
Como se estivesse arrumando o mundo para a próxima estação. 

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