Algumas reflexões sobre assédios...#00237
Ouvi recentemente uma pessoa afirmar que não existem assédios no ambiente de trabalho. Segundo ela, o que costuma acontecer é apenas o chefe pedir que o funcionário faça o que precisa ser feito, e o funcionário, por sensibilidade excessiva, interpretar isso como assédio. Essa pessoa se apresenta como muito experiente e trabalha há quase trinta anos no mesmo lugar.
O que me chamou atenção não foi apenas a afirmação em si, mas o ponto de vista de onde ela parte. Trata-se de uma leitura totalmente centrada na própria experiência, como se a sua trajetória fosse suficiente para explicar todas as relações de trabalho. Não há, nesse discurso, espaço real para a vivência de quem está em posição hierárquica inferior, nem para a possibilidade de que práticas abusivas possam estar naturalizadas justamente por quem nunca precisou nomeá-las.
Fico me perguntando se essa fala é apenas um olhar limitado ao próprio umbigo ou se revela algo mais sério: a reprodução de abusos que já não são percebidos como tais. Porque quando alguém reduz o assédio a “falta de resiliência do funcionário”, o que se faz é apagar humilhações, pressões veladas, constrangimentos e violências simbólicas que não aparecem nos manuais, mas estruturam o cotidiano de muitos ambientes de trabalho.
Trinta anos no mesmo lugar podem significar experiência, mas também podem significar adaptação profunda a uma cultura que deixou de ser questionada. E quando toda forma de denúncia é tratada como exagero, não estamos diante de neutralidade ou bom senso, mas de um discurso que protege práticas e invalida vozes.
No fim, a questão não é se chefes podem cobrar trabalho. Podem e devem. A questão é como essa cobrança é feita, em que contexto, com que linguagem e com quais consequências para quem recebe. Ignorar essa diferença não é ingenuidade. É cegueira? Ou apenas conveniência?
Negar a existência de assédio no trabalho não é opinião neutra. É posição de poder cristalizada. Quem diz isso está falando a partir de um lugar muito específico: o de quem nunca precisou nomear o abuso para se proteger. Trinta anos no mesmo lugar não são prova de lucidez. Muitas vezes são prova de adaptação a uma cultura que normalizou certas práticas.
Há uma confusão proposital nesse discurso. Pedir trabalho não é assédio. Ninguém sério defende isso. O problema começa quando o pedido vem acompanhado de humilhação, ameaça velada, exposição pública, sarcasmo, desqualificação pessoal, metas impossíveis usadas como punição, ou quando o “pedido” não admite recusa sem custo simbólico. A pessoa que reduz tudo a “funcionário sensível” está apagando deliberadamente essas camadas. Do mesmo jeito que violência de gênero é considerado por abusadores como o famoso "mimimi".
Aqui, Erving Goffman ajuda muito.
No ambiente de trabalho, a hierarquia define quem pode romper a cena e quem precisa engoli-la. Chefes controlam a definição da situação. Quando um superior diz “foi só cobrança”, ele está impondo a narrativa oficial. Quem sofre o impacto muitas vezes não tem autorização social para nomear o excesso sem pagar um preço.
Essa fala também revela cegueira moral progressiva. Philip Zimbardo mostrou que pessoas imersas por muito tempo em sistemas de poder passam a confundir papel com identidade. Elas deixam de perceber onde termina a função e começa o abuso, porque o contexto não é questionado.
Do ponto de vista psicológico, essa negação é clássica. Quem assedia raramente se percebe como agressor. Carl Jung chamaria isso de identificação com a persona. A pessoa se vê como “profissional experiente, exigente, correta” e projeta no outro a fragilidade, a incompetência, a “sensibilidade exagerada”. A sombra fica toda do lado de fora.
E há ainda o fator mais simples e mais ignorado: falta de escuta real.
Quem diz que assédio não existe está dizendo, na prática, que a experiência do outro não importa. Isso, por si só, já é um gesto de desumanização.
Um detalhe importante: quando alguém afirma algo assim com convicção, não está abrindo debate.
Está encerrando.
É uma frase que serve para blindar comportamentos, não para compreender a realidade.
Funciona como licença moral preventiva.
Então não, essa pessoa não está apenas “sendo experiente”.
Experiência sem reflexão vira cegueira institucionalizada.
E sim, há grande chance de ela reproduzir práticas abusivas enquanto se vê como vítima de um mundo “sensível demais”.
O critério é simples e nunca falha: se a fala dela invalida sistematicamente a vivência de quem está em posição inferior, não é franqueza.
É poder falando sozinho.
E poder que não se questiona quase sempre machuca alguém.
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