Amizades #00247
Quando mudou de cidade, Daniel prometeu a si mesmo que manteria os amigos por perto.
No começo, manteve.
Mensagens longas. Áudios rindo de coisas antigas. Planos de visitas que pareciam fáceis. A distância era só um detalhe logístico. Amizade de verdade, ele dizia, não depende de geografia.
O tempo começou a apertar devagar.
Primeiro vieram os atrasos nas respostas. Depois as conversas ficaram curtas, cheias de “depois a gente fala com calma”. As chamadas que antes duravam horas passaram a durar minutos.
Ninguém reclamou.
Amigos antigos sabem reconhecer quando o outro está ocupado. E Daniel realmente estava. Trabalho novo, cidade nova, rotina nova. Sempre havia algo urgente pedindo atenção.
Ainda assim, ele mantinha um conforto silencioso: eles estavam lá. Sempre estiveram. Bastava aparecer de novo quando as coisas acalmassem.
Um dia, recebeu uma mensagem no grupo antigo.
Uma foto.
Quatro deles numa mesa de bar. A mesma mesa onde costumavam se encontrar anos antes. Copos erguidos. Risadas abertas. Na legenda, alguém escreveu: “faltou você”.
Daniel respondeu com um emoji de brinde e prometeu que na próxima iria.
A próxima nunca tinha data.
Os meses passaram. As fotos continuaram aparecendo. Novas histórias surgiam, novos apelidos, novas piadas internas que ele não entendia mais.
Ninguém o excluiu do grupo.
Simplesmente seguiram vivendo.
Certa noite, Daniel abriu a conversa antiga e rolou para cima. Encontrou áudios intermináveis, planos absurdos, promessas de amizade para sempre feitas entre gargalhadas.
Percebeu então algo que nunca tinha considerado.
Amizades não acabam de repente.
Elas continuam acontecendo.
Só que sem você.
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