Choro #00251

Quando era criança, Pedro chorava por qualquer coisa.
Queda de bicicleta. Brinquedo quebrado. Um “não” dito com pressa por um adulto que já estava atrasado para o trabalho.
Chorar resolvia rápido. Alguém aparecia, perguntava o que tinha acontecido, limpava o joelho, consertava o brinquedo ou simplesmente ficava ali até a tristeza passar.
Com o tempo, ele aprendeu que certas coisas já não pediam lágrimas.
Na escola, ouviu que precisava ser forte. Entre amigos, percebeu que chorar virava piada. Mais tarde, no trabalho, entendeu que emoções atrapalhavam a imagem de alguém confiável.
Então parou.
Quando algo dava errado, respirava fundo e seguia. Quando algo doía, guardava para depois. Quando alguém ia embora, dizia a si mesmo que fazia parte da vida.
Parecia funcionar.
A vida continuava andando. Problemas eram resolvidos, dias passavam, novas preocupações tomavam o lugar das antigas. Tudo seguia em movimento.
Até que uma noite, anos depois, Pedro abriu uma caixa antiga no fundo do armário.
Dentro havia fotos, cartas, pequenos objetos esquecidos. Coisas que tinham sido importantes em algum momento e depois simplesmente ficaram para trás.
Sentou no chão para olhar uma por uma.
Não aconteceu nada dramático.
Nenhuma lembrança devastadora. Nenhuma revelação repentina.
Apenas uma sequência silenciosa de momentos que ele nunca tinha realmente parado para sentir.
Foi ali que percebeu algo estranho.
As lágrimas vieram sem pedir permissão.
Pedro não estava chorando por uma coisa específica.
Estava chorando por todas as vezes em que não chorou. 

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