Depois #00246

Rafael sempre acreditou que saúde era uma questão de disciplina simples: comer razoavelmente bem, trabalhar muito e não pensar demais no corpo enquanto ele continuasse funcionando.
O corpo funcionava.
Acordava cedo, respondia mensagens antes de levantar da cama, pulava o café da manhã porque reuniões começavam cedo demais. O almoço era rápido, quase sempre em frente ao computador. À noite, dizia a si mesmo que merecia descansar e abria outra tela.
O corpo funcionava.
Às vezes vinha um cansaço estranho. Uma dor breve no peito. Um esquecimento pequeno, como procurar o celular enquanto ele estava na própria mão. Nada que não desaparecesse depois de um café forte ou de uma noite mal dormida que ele prometia compensar no fim de semana.
O corpo funcionava.
Um dia recebeu o resultado de um exame de rotina. Nada grave, disse o médico. Apenas um aviso. Colesterol alto, pressão começando a subir, sinais discretos de estresse prolongado.
— Ainda dá tempo de ajustar — disse o médico.
Rafael concordou com a cabeça, aliviado com a palavra “ainda”. Ainda significava que não era urgente.
Guardou o papel numa gaveta.
Os meses passaram como sempre passam quando a vida parece cheia demais para interrupções. Projetos, prazos, viagens curtas. Pequenas dores que vinham e iam. Pequenas promessas de mudança que sempre começariam na segunda-feira seguinte.
O corpo continuava funcionando.
Até o dia em que não funcionou.
Não foi dramático. Nenhum colapso espetacular. Apenas uma manhã comum em que ele tentou subir a escada do escritório e precisou parar no meio do caminho para respirar.
Ali, parado entre dois andares, Rafael percebeu algo simples.
O corpo tinha avisado durante anos.
Ele é que sempre respondeu: depois.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ao início de tudo, um olá! #001

Cá entre nós... #002

Em busca de nós mesmos #004