Devaneios #00258
Enquanto o metrô corria pelos túneis, Renato estava em outro lugar.
Não fisicamente. O corpo dele seguia segurando a barra de metal, equilibrado entre duas estações. Mas a cabeça tinha ido embora.
Estava em uma entrevista imaginária explicando como sua ideia tinha mudado a empresa. Em outra cena, recebia aplausos depois de uma palestra. Em outra, alguém finalmente reconhecia algo que ele sempre soube sobre si mesmo.
O trem parou.
Algumas pessoas saíram, outras entraram. Renato nem percebeu.
Esses pequenos filmes mentais apareciam com frequência. No trânsito, no banho, antes de dormir. Sempre versões melhores da vida que ele ainda não tinha vivido.
Nelas, tudo fazia sentido.
As respostas vinham rápidas. As decisões eram claras. As pessoas diziam exatamente o que ele gostaria de ouvir.
Era confortável.
Ali, dentro da própria cabeça, Renato era mais corajoso, mais articulado, mais decisivo. Alguém que fazia as coisas acontecerem.
O metrô anunciou a estação dele.
Ele saiu junto com a multidão.
Subiu a escada rolante ainda pensando em outra cena que começava a se formar: uma conversa perfeita que ele teria mais tarde no trabalho. As palavras já estavam prontas.
Quando chegou à mesa, o colega que participaria da conversa perguntou algo simples.
Renato respondeu com um “não sei, depois a gente vê”.
A conversa acabou em poucos minutos.
Horas depois, no caminho de volta para casa, ele retomou o mesmo diálogo dentro da cabeça. Desta vez disse tudo certo. Tudo claro. Tudo forte.
E venceu a discussão.
Foi então que percebeu uma coisa incômoda.
Nos devaneios, ele sempre era a pessoa que queria ser.
Na vida real, quase nunca dava tempo de tentar.
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