Domesticações, rótulos e funções #00233

É interessante observar certos comportamentos humanos.
Mais ainda quando se é atravessado por eles.
Algumas pessoas têm a necessidade de rotular o outro a partir das próprias limitações.
Não enxergam uma pessoa em movimento, mas uma imagem fixa. 
E a imagem, para elas, precisa permanecer exatamente como foi impressa e no lugar onde foi colocada.
Surge então a etiqueta: discreta, invisível, mas rígida.

No início, tudo pode parecer relação.
Há troca, presença, até afeto. 
Mas, silenciosamente, instala-se uma expectativa não verbalizada: 
você permanece aqui porque foi aqui onde eu lhe conheci.
Fique aqui porque é assim que eu quero.
Fique no lugar em que eu entendi que você deve ficar.

Não são pedidos conscientes.
São necessidades internas.

Enquanto você continua reconhecível, tudo funciona.

Talvez a analogia com a domesticação ajude a entender.

Algumas pessoas só sabem se relacionar com aquilo que pode ser condicionado.
Aquilo que só requer um tipo de ração, horários previsíveis, nenhuma surpresa.
Animais.
Elas têm incapacidade de lidar com tudo o que é autônomo, mas se permitem ir e vir, mudar, desaparecer, retornar.
E esperam encontrar você intacto, como um móvel deixado no mesmo lugar.
Quando retornam e percebem a mudança, algo nelas se desorganiza.
Por dentro.

Sua transformação ameaça um ponto de apoio invisível.
Revela uma instabilidade que dependia da sua imobilidade para não ser percebida.
É aí que surge a hostilidade.
Não como ataque frontal, mas como incômodo difuso.
Algo em você passa a irritar: a aparência, o tom, o espaço que ocupa, a maneira de existir.
Elas não rejeitam exatamente o que você fez.
Rejeitam o fato de que você não ficou do jeito que elas te deixaram.
E uma possível agressividade surge com isso.
Agressividade que nasce do medo.
Medo de deixar de ser o centro.
Medo de perder o controle da narrativa.
Medo de encarar que o outro nunca foi extensão de si.

Incapazes de admitir isso, tentam te reduzir.
Diminuir simbolicamente aquilo que cresceu em você.
Se você voltar ao lugar antigo, o desconforto cessa.
Se não voltar, a relação pode começar a apodrecer.

O erro comum de quem é vítima disso é tentar explicar a mudança, suavizá-la, pedir permissão tardia.

Nada disso funciona. 
Porque o problema nunca esteve no que você fez, mas no fato de ter feito por si.

Crescer, nesse contexto, é romper um acordo que nunca foi explícito, mas que sustentava o mundo interno do outro.
Por isso, quando você segue sem se justificar, algo previsível acontece: o conflito se intensifica ou a pessoa se afasta.
Não porque você atacou, mas porque deixou de sustentar um papel e, quem sabe, um mundinho no imaginário dela.

Há relações que só existem enquanto você permanece imóvel.
Quando você se move, elas acabam.

Isso não é fracasso relacional.

É o sinal exato de que você deixou de ser função
e começou a ser pessoa.

E isso, para quem nunca aprendeu a lidar com a própria instabilidade,
é insuportável.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ao início de tudo, um olá! #001

Cá entre nós... #002

Em busca de nós mesmos #004