E se...#00234

E se vivêssemos num mundo onde todos se tratassem bem?
Se a gentileza fosse o chão comum,
o ar que se respira,
o gesto automático,
o que faria alguém parar diante de outra pessoa
e não apenas seguir adiante?

Se ninguém ferisse por descuido,
se todos fossem disponíveis, atentos, educados,
o que restaria
para diferenciar um vínculo de uma convivência?

O que nos faria escolher alguém
quando o alívio já não fosse critério,
quando o carinho não fosse raro,
quando ser visto não fosse privilégio?

Seria o desejo,
mas como reconhecer desejo
num mundo onde ninguém precisa ser desejado para sobreviver?
Seriam os valores,
mas como testá-los
se o conflito não nos empurrasse para o limite?

E se, nesse mundo gentil,
amar deixasse de ser resposta à falta
e passasse a ser pergunta aberta?

Quantas pessoas aceitaríamos perder
antes de escolher ficar?

Quantas ficaríamos dispostos a deixar ir
sem transformar isso em fracasso?
E se o amor, nesse cenário,
fosse menos encontro
e mais decisão?

Menos necessidade
e mais precisão.

Menos promessa
e mais escolha repetida.

E se, num mundo onde todos se tratam bem,
o vínculo só existisse
quando duas pessoas, podendo estar em qualquer lugar,
ainda assim perguntassem, todos os dias:
é aqui?

E se vivêssemos num mundo onde ninguém precisasse brigar por dinheiro,
onde status não definisse valor
e poder não fosse moeda de troca?

Se ninguém precisasse provar nada,
acumular nada,
subir nada,
o que restaria
como critério de escolha entre duas pessoas?

Se o dinheiro não comprasse segurança,
se o prestígio não comprasse desejo,
se a posição não garantisse voz,
quem ainda pareceria interessante?

O que seduziria
quando ninguém mais fosse salvo por ninguém?

Quando não houvesse vantagem em se associar,
nem proteção em se alinhar?

Se o outro não pudesse oferecer
nem ascensão,
nem estabilidade,
nem status refletido,
o que justificaria permanecer?

Seria a inteligência em movimento?
A curiosidade que não se esgota?
A ética que aparece quando não há recompensa?

Ou a coragem de sustentar a própria sombra
sem terceirizá-la?

E se, nesse mundo,
ninguém precisasse usar o amor como escada,
nem o relacionamento como abrigo social,
quantos vínculos sobreviveriam?

Quantos encontros resistiriam
sem a cola do medo,
sem o cimento da conveniência,
sem o empurrão da escassez?

E se o amor, livre de dinheiro, status e poder,
fosse apenas isso:
duas pessoas que se escolhem
sem ganhar nada
além da experiência de existir juntas?

Quem escolheríamos
se não houvesse vantagem alguma?

E quem nos escolheria
se não houvesse nada a oferecer
além de presença, verdade
e o risco de não ser suficiente?

E se, nesse mundo,
amar fosse o único ato
que não desse retorno algum
a não ser a própria escolha?

Quem ficaria?

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