Efeitos retardados #00244
Alguns comentários têm efeito retardado.
Funcionam um pouco como aqueles chinelos maternos da infância, arremessados com uma precisão quase mítica.
Às vezes parecem nem ter acertado. A conversa continua, a vida segue, e só algum tempo depois o impacto chega, discreto e certeiro, exatamente no lugar onde devia.
Alguns chegam ardidos. Doloridos. Efeito lento da maldade destilada.
Há tipo de comentário que não chega a ser um insulto. Ele vem disfarçado de conselho, de incentivo ou até de interesse. Só depois, quando a frase já passou e a conversa seguiu adiante, a gente percebe que alguma coisa ficou ligeiramente atravessada.
Uma contemporânea minha, por exemplo, sempre dizia que gostaria muito de ler o que eu escrevesse.
Repetiu isso algumas vezes, com aquele entusiasmo generoso que as pessoas costumam demonstrar diante de talentos que ainda não precisaram enfrentar o mundo real. Durante um tempo ela insistiu para que eu me dedicasse a isso, para que publicasse alguma coisa, para que mostrasse ao mundo minhas ideias sempre tão perspicazes. Falas dela.Um dia resolvi me aventurar no incentivo. Já havia feito isso antes com outras temáticas. Nada de novo.
Abri um novo blog, publiquei alguns textos e mandei o link para ela.
A resposta chegou rápida e tranquila. Disse que eu ficasse sossegada, que quem precisasse ler o que eu escrevia acabaria chegando até mim.
A frase tinha uma serenidade curiosa. Era quase espiritual. Parecia uma versão literária daquela ideia de que o universo conspira a favor das coisas certas. Eu não desacredito de nada e não me surpreendo mais com muita coisa. Mas, como tudo me leva a refletir, fiquei pensando que, nesse universo, talvez a primeira pessoa a não precisar ler fosse justamente quem tinha pedido tanto para ler.
Essas pequenas situações têm uma delicadeza interessante. Elas não chegam a ser hostis. São apenas comentários que deixam no ar uma leve dúvida sobre o que exatamente foi dito e o que foi evitado dizer.
Outra colega reagiu de forma diferente quando ouviu uma história minha. Contei um conto em voz alta, como quem compartilha um caso qualquer. Ela ouviu com atenção. Em certo momento seus olhos brilharam e ela disse que ali havia material, que aquilo poderia virar livro.
A frase foi sincera, ao que pareceu. Ainda assim fiquei pensando no que exatamente havia brilhado em seus olhos. Talvez fosse a história. Talvez fosse a forma como eu a contei. Ou talvez fosse aquela centelha discreta que às vezes aparece quando alguém percebe, meio sem querer, que também gostaria de fazer aquilo.
A admiração humana é um fenômeno curioso. Às vezes ela é dirigida à pessoa que está diante de nós. Outras vezes ela aponta para uma versão de nós mesmos que ainda não tivemos coragem de tentar.
Essa mesma colega, em outra conversa, sugeriu que eu deveria me mudar logo para um apartamento com portaria. Disse isso com a naturalidade de quem recomenda um restaurante. Logo em seguida acrescentou, quase como um detalhe técnico, que eu provavelmente não tinha dinheiro para isso. "Não tenho papas na língua", foi sua desculpa por ter sido minha consultora financeira pro bono sem solicitação prévia naquele momento.
Achei curioso o modo como certas avaliações financeiras aparecem com tanta segurança na vida cotidiana. Algumas pessoas observam as contas bancárias alheias com uma confiança quase científica, mesmo quando nunca viram nenhum número.
Outro dia uma colega, profissional da área de saúde mental, observou meu cabelo. Eu o havia pintado recentemente e o resultado tinha ficado um pouco manchado, como acontece quando alguém decide experimentar por conta própria. Ela olhou com atenção e perguntou se eu mesma pintava meu cabelo.
Respondi que sim. Às vezes eu mesma pintava. E às vezes também cortava.
Ela fez um pequeno som de compreensão e disse que devia ser bom ser livre para fazer o que se quer.
Fiquei pensando naquela observação por um instante. Havia algo curioso no modo como a liberdade aparecia ali, como se fosse uma característica exótica, quase uma extravagância capilar. No fundo era apenas cabelo, crescendo e mudando de cor como sempre fez.
Nada disso chega a ser grave. São apenas pequenas alfinetadas que atravessam o dia a dia sem fazer muito barulho. Frases que parecem gentis na superfície, mas carregam dentro delas uma pequena classificação silenciosa do mundo.
Há quem se irrite com essas coisas. Eu prefiro observá-las. Elas revelam muito sobre como as pessoas organizam suas certezas, seus desejos e suas suposições sobre a vida dos outros.
No fundo, essas conversas acabam sendo úteis. Funcionam como aqueles limões inesperados que aparecem na cozinha. Sozinhos são ácidos demais. Mas quando alguém resolve prestar atenção no sabor, eles acabam virando outra coisa.
Às vezes viram apenas uma história.
Outras vezes viram literatura.
Em outras vezes provocam apenas um sorriso discreto no canto da boca.
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