Eficiência #00262

Ela era conhecida por resolver tudo. 
No trabalho, ninguém lembrava exatamente quando começou, mas virou hábito: qualquer problema acabava na mesa de Helena. Planilhas desorganizadas, prazos confusos, equipes que não se entendiam. Ela olhava, reorganizava, decidia. Em poucas horas, tudo voltava a funcionar.
Chamavam isso de eficiência. 
Helena também. Super inteligente.
Respondia e-mails rápido, antecipava demandas, corrigia erros antes que alguém percebesse. As pessoas confiavam nela porque parecia sempre dois passos à frente.
Aquilo virou identidade.
Quando alguém dizia “deixa com a Helena”, ela sentia uma satisfação discreta. Como se o mundo, no fundo, dependesse um pouco da sua capacidade de colocar ordem nas coisas.
O curioso era que essa habilidade funcionava melhor com a vida dos outros.
Helena sabia organizar agendas alheias, resolver conflitos de equipe, estruturar projetos complexos. Mas havia áreas onde sua eficiência nunca aparecia.
Relacionamentos que ela mantinha por mais tempo do que queria. Convites que aceitava por obrigação. Cansaços que ignorava porque ainda dava para aguentar mais um pouco.
Essas coisas não entravam nas planilhas.
Certa noite, revisando um relatório pela terceira vez para ajustar detalhes mínimos, Helena percebeu algo simples.
Passava horas consertando problemas que outras pessoas tinham criado.
E quase nenhum tempo lidando com os próprios.
Fechou o computador e ficou olhando a sala vazia.
Pela primeira vez, considerou uma hipótese desconfortável.
Talvez sua eficiência não fosse apenas talento.
Talvez fosse também uma maneira muito organizada de evitar certas decisões.
Porque enquanto estava ocupada resolvendo tudo para todo mundo, nunca precisava parar para perguntar uma coisa básica.
O que, exatamente, ela queria resolver na própria vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ao início de tudo, um olá! #001

Cá entre nós... #002

Em busca de nós mesmos #004