Elevador #00245
O elevador parou no 47º andar, mas o prédio só tinha quarenta e seis.
Clara não se assustou. Apertou o botão de abrir portas como quem insiste numa senha esquecida. Nada. O visor piscava “47” em vermelho, firme, teimoso. Ela estava atrasada para a reunião que poderia salvá-la da demissão. Ou condená-la de vez. No bolso, o celular sem sinal. No peito, a certeza de que vinha ignorando sinais há meses.
As portas se abriram.
Não havia corredor. Havia a sala da sua antiga casa, exatamente como na última noite em que saiu batendo a porta. O sofá gasto, a planta torta, a xícara quebrada na pia. E ele, sentado no chão, dizendo pela milésima vez que não era sobre dinheiro, era sobre ausência.
Clara entrou.
— Isso não é real — disse, mas a própria voz soou como gravação antiga.
Ele levantou os olhos. Não parecia mais jovem. Parecia mais lúcido.
— Você sempre sobe quando devia descer — respondeu.
Ela queria discutir semântica, culpar prazos, clientes, o mercado. Mas o elevador ainda estava ali, atrás dela, com as portas abertas como um prazo final. O visor agora marcava “0”.
— Se eu ficar? — perguntou.
— Você nunca fica — ele disse, sem raiva.
Clara pensou na reunião, no bônus, no apartamento novo. Pensou nas noites em claro que chamava de ambição. Pensou no silêncio que chamava de paz.
Deu um passo para trás.
As portas fecharam.
O elevador desceu rápido demais. Quando abriu no térreo, o prédio tinha quarenta e seis andares outra vez. O celular voltou a ter sinal. Uma mensagem da empresa: “Reunião cancelada. Reestruturação imediata.”
Clara riu. Não de alegria.
Apertou o botão “47”.
Dessa vez, o elevador não subiu.
Ela teria que aprender a subir sozinha.
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