Esperança #00253

Quando o médico saiu da sala, ninguém falou nada por alguns segundos.
A família de Dona Lúcia ficou sentada em silêncio, como se o ar tivesse ficado mais pesado. A palavra tinha sido dita com cuidado, mas clara o suficiente: difícil.
Tratamento longo. Chances incertas. Muitos “vamos ver”.
Alguns começaram imediatamente a pesquisar no celular. Outros tentavam lembrar de alguém que tinha passado por algo parecido. Uma sobrinha falava sobre novos tratamentos que tinha visto na internet.
Dona Lúcia apenas ouvia.
Quando todos saíram para resolver papéis e telefonemas, ela ficou sozinha no quarto do hospital.
A janela dava para um pedaço pequeno de céu entre dois prédios. O tipo de vista que ninguém chama de bonita, mas que ainda assim deixa entrar luz suficiente para lembrar que o dia continua acontecendo lá fora.
Uma enfermeira entrou alguns minutos depois para ajustar o soro.
— A senhora está confortável? — perguntou.
— Estou — respondeu Dona Lúcia.
A enfermeira hesitou antes de sair.
— A senhora está com esperança?
Dona Lúcia pensou por um momento.
Não pensou em milagres. Não pensou em estatísticas. Não pensou em promessas grandiosas de que tudo ficaria bem.
Olhou novamente para a janela.
— Esperança não é pensar que vai dar tudo certo — disse com calma.
A enfermeira parou na porta.
— Então o que é?
Dona Lúcia sorriu de leve.
— É continuar arrumando a cama de manhã, mesmo quando ninguém garantiu que a gente vai dormir nela à noite.
A enfermeira ficou em silêncio por um segundo.
Depois saiu.
Lá fora, o corredor continuava cheio de gente correndo de um lado para o outro.
Mas dentro do quarto, pela primeira vez naquele dia, parecia haver um pouco mais de espaço para respirar. 

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