Liberdade #00259

Mesmo depois do enterro, a mãe continuava mandando.
Durante anos, tinha sido assim. 
A forma de dobrar as roupas, a hora certa de sair de casa, as escolhas que “faziam sentido” e as que eram “besteira”. 
A mãe não perguntava. 
Informava.
Quando morreu, a casa ficou silenciosa demais.
Nos primeiros dias, a filha achou que aquele silêncio era liberdade. Ninguém opinando sobre o que ela vestia. Ninguém dizendo que aquele trabalho não era seguro, que aquele namorado não parecia confiável, que aquela ideia não tinha futuro.
Pela primeira vez, a vida parecia só dela.
Então vieram os sonhos.
Na primeira noite, a mãe apareceu sentada à mesa da cozinha, exatamente como costumava ficar nas manhãs de domingo.
— Você precisa organizar melhor essa casa — disse.
A filha acordou irritada. Culpa do cansaço, pensou.
Na noite seguinte, a mãe voltou.
— Não confie tanto nessas pessoas do trabalho.
Na outra:
— Esse caminho que você está escolhendo não vai dar certo.
As ordens eram ditas no mesmo tom calmo de sempre. Sem gritar. Sem discutir. Como quem apenas descreve a forma correta das coisas.
Os sonhos começaram a se repetir.
A filha acordava cansada, com a sensação de que nunca tinha realmente saído daquela cozinha.
Certa madrugada, porém, o sonho mudou um pouco.
A mãe começou a falar, como sempre fazia:
— Você precisa...
A filha interrompeu:
— Não.
A palavra saiu pequena, mas clara.
A mãe ficou em silêncio pela primeira vez.
A filha respirou fundo dentro do próprio sonho.
— Você já morreu — disse.
A mãe a observou por alguns segundos. Depois levantou da cadeira, caminhou até a porta da cozinha e desapareceu no corredor escuro.
Na manhã seguinte, a filha acordou com uma sensação estranha.
Não era saudade.
Era espaço.

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