Lugares e lugares # 00243
Durante muitos anos ficamos sem nos ver.
A vida costuma espalhar as pessoas em direções imprevisíveis e, quando elas se reencontram, já não são exatamente as mesmas.
Meu primo, por exemplo, havia prosperado. Tinha uma agência de viagens, vendia vinhos caros e falava com naturalidade sobre clientes que pareciam habitar um planeta onde o dinheiro não é exatamente um problema, mas uma espécie de idioma.
Foi ele quem nos convidou para jantar. Um banquete, disse.
Havia entusiasmo na palavra, como se o jantar fosse também uma pequena demonstração de vitória pessoal.
Quando chegamos à casa, ele nos levou imediatamente para conhecer o que chamava de seu bar. Ficava em um cômodo à parte da casa, organizado com um zelo quase cerimonial. Garrafas alinhadas, utensílios brilhando, tudo disposto com a elegância um pouco esforçada de quem gosta de mostrar que aprendeu recentemente certos rituais do conforto.
Ele parecia feliz em explicar cada detalhe. Falava dos vinhos, dos ingredientes, da forma correta de preparar a massa que havia feito naquela noite. No centro da cozinha trabalhava uma batedeira impressionante, dessas máquinas sólidas que parecem feitas para atravessar gerações. Eu a observei com curiosidade e comentei que um dia ainda compraria uma daquelas. Disse isso como quem menciona um pequeno sonho doméstico, algo simples.
Ele respondeu sem pausa. Disse que era cara demais para mim.
A frase veio limpa, direta, como se fosse apenas uma informação útil. Continuei ali, comendo a massa que ele havia preparado e bebendo o vinho do Porto que ele servia com orgulho. Algumas observações a gente engole junto com o jantar, principalmente quando a conversa ainda promete outras coisas. Eu queria ouvir histórias da família. Havíamos passado muito tempo separados e ele guardava informações que eu não tinha.
Mais tarde surgiu outro assunto. Meu então marido havia acabado de ganhar dinheiro em um projeto grande e estava decidido a gastar parte dele viajando. Pediu que eu perguntasse ao meu primo que tipos de viagens ele oferecia. Parecia uma pergunta natural, quase inevitável diante da profissão dele.
Ele respondeu imediatamente que não trabalhava com pacotes pequenos.
A frase foi dita com a mesma tranquilidade da anterior. Não havia irritação nem arrogância explícita. Apenas uma espécie de medida invisível sendo aplicada à conversa, como se certas possibilidades simplesmente não pertencessem àquela mesa.
Foi nesse momento que percebi algo curioso. Meu primo não vendia apenas viagens. Vendia também um certo pertencimento. A promessa de acesso a um mundo onde as pessoas escolhem destinos exóticos, discutem safras de vinho e utilizam batedeiras que custam o suficiente para se tornarem assunto.
Talvez fosse apenas o modo como ele havia aprendido a viver agora. Algumas pessoas, quando chegam perto de um certo conforto, passam a vigiar a fronteira com muito cuidado. Precisam ter certeza de que estão do lado certo dela.
Terminamos o jantar com cordialidade. Conversamos sobre outras coisas, esvaziamos os copos e nos despedimos como fazem os parentes que passaram muito tempo sem se ver e ainda tentam encontrar um tom comum.
No caminho de volta fiquei pensando que certos objetos são curiosos. Uma batedeira pode ser apenas uma batedeira. Ou pode virar um pequeno símbolo de posição social dependendo da casa em que se encontra.
Talvez fosse o tipo de observação que agradaria a cronistas atentos aos gestos cotidianos, como fazia Rubem Braga ao notar que às vezes a alma de uma pessoa aparece nos detalhes mais simples de uma sala.
No fim das contas, o jantar havia sido bom. A massa estava correta, o vinho era generoso e a conversa tinha seus momentos interessantes. Mas algumas frases permanecem na memória com mais nitidez do que os sabores.
Elas dizem coisas que seus autores talvez não tenham percebido dizer. Revelam que certas pessoas, mesmo cercadas de garrafas elegantes, utensílios caros e promessas de viagens distantes, continuam muito ocupadas em uma tarefa bastante simples.
Convencer a si mesmas de que finalmente pertencem ao lugar onde sempre quiseram estar.
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