Luto #00254
Quando o telefone tocou naquela madrugada, André já sabia que não era uma boa notícia.
Ninguém liga às três da manhã para dizer que está tudo bem.
A voz do outro lado falou devagar, como se cada palavra precisasse de cuidado para existir. Hospital. Complicação. Não deu tempo.
André agradeceu a ligação com uma calma que nem ele entendeu.
Desligou.
Ficou sentado na beira da cama por alguns minutos, olhando para o chão.
O quarto estava igual ao de todas as outras noites.
A mesma cadeira com roupas jogadas, o mesmo relógio marcando segundos indiferentes.
Nada no mundo parecia ter recebido o aviso.
Nos dias seguintes, as pessoas apareceram.
Abraços demorados.
Frases que começavam com “qualquer coisa que você precisar”.
Histórias antigas contadas com carinho, como se repetir lembranças pudesse manter alguém por perto mais um pouco.
O enterro aconteceu rápido, como sempre acontece.
Flores. Terra. Silêncio.
Depois disso, cada um voltou para sua rotina.
André também.
Voltou ao trabalho. Respondeu mensagens. Fez compras no mercado.
A vida continuou funcionando com uma eficiência quase ofensiva.
Foi só algumas semanas depois que o luto apareceu de verdade.
Não veio no cemitério.
Veio no supermercado, quando ele viu o biscoito que ela sempre comprava.
Veio ao pegar o telefone para contar algo e lembrar que não havia mais para quem ligar.
Veio numa tarde comum, quando percebeu que certas pessoas não deixam apenas um vazio.
Elas deixam pequenos espaços espalhados pela vida inteira.
E é nesses lugares que o luto aprende a morar.
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