Metáforas indigestas #00241

Curral vendido como horizonte.
Gaiola decorada com frases motivacionais.
Âncora convencida de que é raiz.
Vitrine acesa. Estoque vencido.
Bolo confeitadíssimo. Massa crua no centro.
Relógio de ouro parado às três.
Perfume caro sobre suor de medo.
Fita isolante segurando fio desencapado.
Remendo de veludo em rasgo estrutural.
Espuma expandida nas rachaduras.
Botox nas falhas. 
Vinho novo em odres velhos.
Superfície lisa. Fundação podre.
Casa com fachada nova, mofo atrás do drywall.
Maçã polida com verme satisfeito.
Plástico-bolha protegendo ego frágil.
Camaleão crônico.
Cor ajustada à expectativa alheia.
Originalidade em extinção.
Leão sem juba defendendo jaula.
Rugido convertido em miado socialmente aceitável.
Instinto castrado por aprovação.
Correr na esteira da validação.
Suor real. Quilometragem zero.
GPS recalculando destino inexistente.
Contrato assinado com tinta de carência.
Prótese de coragem encaixada sobre medo antigo.
Armadura pesada demais para nadar.
Museu de versões não vividas.
Cemitério de decisões adiadas.
Rascunho eterno esperando autorização para virar vida.
Espantalho acreditando que é agricultor.
Farol que teme a própria luz.
Ponte que não liga nada a lugar nenhum.
Carne viva pedindo curativo invisível.
Dente inflamado mastigando orgulho.
Nervo exposto sob sorriso esticado.
Beber água salgada chamando de hidratação.
Reaquecer comida estragada para evitar desperdício emocional.
Dormir ao lado da própria frustração como se fosse travesseiro.
Rato roendo fio dentro da parede.
Curto-circuito anunciado.
Incêndio abafado com aplauso externo.
Trocar coluna vertebral por aplauso.
Ser teto dos outros. Chão de si.
Escavar o próprio poço e chamar de profundidade.
Espelho polido refletindo o nada.

Chega de rascunho.
Assine a própria vida.

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