Sonhos #00257

Quando era jovem, Marcelo falava muito sobre seus sonhos.
Não eram sonhos pequenos. Falava em escrever um livro, morar em outro país, abrir um negócio próprio. Dizia essas coisas com a naturalidade de quem acredita que o futuro é apenas uma questão de tempo.
As pessoas gostavam de ouvir.
Sonhos têm esse efeito. Eles fazem a vida parecer maior do que o presente.
Com o passar dos anos, Marcelo continuou falando deles.
Mas as frases começaram a mudar.
— Um dia ainda faço isso.
— Quando as coisas estiverem mais estáveis.
— Depois que essa fase passar.
Nada parecia impossível. Apenas… adiado.
Enquanto isso, outras coisas foram ocupando espaço. Trabalho, contas, responsabilidades. Coisas concretas, urgentes, que exigiam atenção imediata.
Os sonhos continuavam existindo.
Só que sempre no futuro.
Certa noite, Marcelo encontrou um caderno antigo enquanto organizava o armário. Era de muitos anos antes. Na primeira página havia uma lista escrita com pressa: lugares que queria conhecer, projetos que queria tentar, ideias que pareciam importantes demais para esquecer.
Sentou no chão e começou a ler.
Algumas coisas ainda faziam sentido. Outras pareciam pertencer a outra pessoa.
Foi então que percebeu algo estranho.
Ele ainda lembrava de todos aqueles sonhos.
O problema não era esquecimento.
Era hábito.
Durante anos, Marcelo tinha treinado a si mesmo a fazer a mesma coisa sempre que um sonho aparecia: colocá-lo um pouco mais adiante no tempo.
Até que, sem perceber, transformou todos eles no mesmo lugar.
Algum dia.
E “algum dia” é um lugar curioso.
Todo mundo planeja chegar lá.
Quase ninguém chega. 

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