Sozinho #00252
O quarto era silencioso demais para um lugar cheio de máquinas.
Ricardo acordou no meio da noite sem saber exatamente onde estava. O teto branco, a luz fraca do corredor entrando pela porta entreaberta, o som regular de um monitor marcando um ritmo que não parecia pertencer a ele.
Levou alguns segundos para lembrar.
Hospital.
Não era nada dramático, tinham dito. Um procedimento simples. Rotina. Algumas horas de observação e depois alta.
Mesmo assim, ali estava ele, acordado às três da manhã, olhando para um teto que não conhecia.
Tentou pegar o celular na mesa ao lado da cama. Bateria quase no fim. Nenhuma mensagem nova.
Não que estivesse esperando alguma.
Antes da cirurgia, tinha avisado poucas pessoas. Não queria incomodar ninguém por algo pequeno. Cada um tinha sua vida, seus compromissos. Parecia exagero transformar aquilo num evento.
Agora o hospital estava quieto.
Em algum lugar distante, um carrinho metálico passou pelo corredor. Alguém tossiu atrás de uma parede. Depois silêncio outra vez.
Ricardo percebeu algo que nunca tinha pensado com muita clareza.
Passara anos dizendo que gostava de ficar sozinho.
Gostava de trabalhar sozinho. Viajar sozinho. Resolver as próprias coisas sem depender de ninguém.
Aquilo sempre soou como independência.
Mas naquela madrugada percebeu uma diferença pequena que nunca tinha considerado.
Escolher estar sozinho é uma coisa.
Acordar sozinho em um quarto de hospital é outra completamente diferente.
Ele ficou olhando o celular por alguns minutos.
Depois abriu a lista de contatos.
Pela primeira vez em muito tempo, não estava procurando algo para fazer.
Estava procurando alguém para chamar.
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