Liberdade para quê? #00296

Há uma frase que chega sempre com sorriso:
“Eu me sinto tão à vontade com você.”
E, logo depois dela, vem o excesso.
A palavra atravessada.
O tom que sobe.
A ironia que não precisava existir.
Como se intimidade fosse licença.
Como se proximidade autorizasse descuido.
Não autoriza.
Mas a frase é conveniente. Funciona como álibi antecipado. 
Quem diz já se absolve antes mesmo de ferir. 
Transforma o próprio descontrole em elogio, como se a liberdade fosse prova de vínculo — e não de falta de limite.
É um truque antigo.
Desloca a responsabilidade.
Suaviza o impacto.
E ainda pede compreensão.
“Eu sou assim com quem gosto.”
Não é.
Quem gosta sustenta forma. Quem respeita regula gesto. Quem tem consideração mede a força do que diz — justamente porque pode ferir.
Conforto não é descuido.
Confiança não é licença.
Proximidade não é território sem regra.
Mas há quem prefira confundir.
Porque é mais fácil manter o hábito do que revisar o comportamento. Mais simples continuar atravessando o outro do que aprender a falar sem invadir. E, quando encontra alguém que não reage de imediato, interpreta como espaço aberto.
Não é espaço.
É tolerância em esgotamento.
Aos poucos, o corpo percebe antes da cabeça. Vem um recuo quase imperceptível, uma economia de presença, um cuidado maior com o que se oferece. Não é frieza. É leitura.
Leitura de que aquele “à vontade” nunca foi sobre vínculo.
Foi sobre acesso.
Acesso sem custo.
Acesso sem consequência.
Acesso que não se responsabiliza pelo efeito que produz.
E há um ponto em que isso deixa de ser aceitável.
Não por drama.
Por precisão.
Porque liberdade sem limite não é liberdade. É invasão bem embalada.
E intimidade que fere não é intimidade. É descuido crônico travestido de espontaneidade.
Talvez o gesto mais claro seja simples e pouco performático:
retirar o acesso.
Sem anúncio.
Sem explicação longa.
Sem entrar na discussão que o outro gostaria de ter.
Só ajustar a distância.
Porque quem realmente está à vontade com você não usa isso para atravessar.
Usa para cuidar melhor do que diz.
E, quando isso não acontece, não é você que precisa entender.
É o outro que precisa aprender.
E, se não aprende, aprende o limite.
Mesmo que em silêncio.

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