Necropolítica, Achile Mbembe #00320
A discussão sobre racismo estrutural já é incômoda por si só.
Ela desmonta a ideia de neutralidade e mostra que desigualdades não são acidentes.
Mas, quando essa leitura é cruzada com a Critical Race Theory e levada adiante pela noção de necropolítica, o nível de análise muda de forma decisiva.
Já não se trata apenas de quem tem menos oportunidades. A pergunta se torna mais dura: quem o sistema deixa viver — e quem ele aceita que morra.
O conceito de necropolítica, formulado por Achille Mbembe, parte de uma constatação desconfortável: o poder contemporâneo não se limita a organizar a vida social.
Ele também administra a morte.
Não apenas por violência direta, mas pela exposição sistemática a condições de risco — ausência de políticas públicas, abandono estatal, seletividade policial. Morrer deixa de ser acidente. Vira resultado previsível.
Quando você olha para o Brasil através dessa lente, a engrenagem deixa de ser abstrata. Ela se revela concreta, repetitiva, mensurável. A desigualdade de renda, de acesso à educação, de mobilidade social já indicava uma hierarquia. A necropolítica expõe o estágio seguinte: a hierarquia do direito à vida.
Autores brasileiros pegam essa chave e giram com precisão.
Silvio Almeida mostra que o racismo organiza a estrutura. Define quem acessa direitos e quem permanece à margem. Levado ao limite, isso também define quem está mais exposto à violência, ao abandono e à morte. Não é coincidência que certos corpos apareçam de forma recorrente nas estatísticas de letalidade. É padrão.
Vladimir Safatle aprofunda a crítica ao apontar um Estado que opera pela gestão do medo e da violência. Certas populações não são apenas negligenciadas. São tratadas como descartáveis dentro de uma lógica política funcional. Não é falha. É método.
Sueli Carneiro adiciona uma camada decisiva com o conceito de epistemicídio. Antes de eliminar corpos, o sistema deslegitima saberes, vozes e existências. Isso prepara o terreno. Se uma vida não é plenamente reconhecida, sua perda pesa menos. A violência posterior encontra menos resistência.
Abdias do Nascimento já denunciava essa continuidade ao falar de genocídio da população negra. A linguagem muda ao longo do tempo. A lógica permanece: há um processo histórico de eliminação — física, cultural e simbólica — que se atualiza sem necessariamente se declarar.
O ponto central não é acumular conceitos. É entender o encadeamento.
A Critical Race Theory revela que sistemas produzem desigualdade mesmo sob aparência de neutralidade. O pensamento brasileiro sobre racismo estrutural mostra como isso opera em um país que nega o conflito enquanto o reproduz. A necropolítica escancara o limite desse processo: quando a desigualdade não apenas restringe vidas, mas define quais vidas são consideradas sacrificáveis sem ruptura social suficiente.
Isso não é teoria distante. No Brasil, é territorializado. Tem endereço. Aparece em operações policiais concentradas, em ausência crônica de políticas públicas onde elas são mais necessárias, em padrões de violência que se repetem com precisão estatística.
E aqui a conversa deixa de ser apenas analítica. Ela se torna inevitavelmente prática.
Porque, se o sistema funciona dessa forma, atacar apenas comportamentos individuais é irrelevante. Apostar em gestos simbólicos é insuficiente. O problema não está na ponta. Está no desenho.
Alterar esse tipo de estrutura exige intervenção simultânea em várias camadas: políticas públicas, distribuição de recursos, critérios institucionais, narrativas sociais. E exige algo que costuma ser evitado: reconhecer que toda estrutura desse tipo beneficia alguém. E estruturas não cedem espaço espontaneamente.
Isso implica conflito. Implica negociação. Implica pressão organizada. Implica sair da posição confortável de observador.
A pergunta final não é mais conceitual. Não é “o que é necropolítica” ou “como o racismo opera”.
É outra, mais direta e mais incômoda: quando certas mortes se tornam estatística e não crise, o que isso revela sobre o valor que o sistema atribui a essas vidas, e o que você está disposto a confrontar para que isso mude?
Se a leitura não te empurra para essa pergunta, você ainda está na superfície.
Se empurra, então o próximo passo é inevitável: aprofundar, tensionar, estudar — em Achille Mbembe, em Silvio Almeida, em Sueli Carneiro — e, principalmente, observar o padrão ao seu redor.
Porque, a essa altura, a discussão já não é mais sobre existência.
É sobre por que continua funcionando tão bem.
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