Onde e com quem vale a pena estar #00294
Há um tipo de cansaço que não vem do trabalho.
Vem das pessoas.
Não de todas — de algumas. As mesmas. As previsíveis. As que exigem mais do que entregam, mais do que sustentam, mais do que qualquer convivência razoável deveria cobrar.
É um cansaço que não aparece no corpo de imediato. Ele começa antes, num lugar mais discreto. Começa na antecipação.
Você chega e já sabe.
Sabe quem vai tensionar o ambiente, quem vai medir palavras, quem vai testar limites disfarçando de conversa comum. Sabe quem transforma um “bom dia” em abertura estratégica, quem lê além do que foi dito só para ter o que devolver.
E aí o corpo responde.
Antes mesmo de qualquer coisa acontecer, já vem um peso. Uma vontade de economizar presença. De reduzir interação ao mínimo necessário. De não abrir espaço.
Porque abrir espaço custa.
E você já pagou demais.
Há um momento em que a gente entende que não é sobre conflito pontual. É sobre padrão. Sobre repetição. Sobre um tipo de convivência que drena, que desgasta, que exige vigilância constante.
E vigilância cansa.
Cansa mais do que fazer.
Mais do que resolver.
Mais do que entregar.
Cansa porque não termina.
Não há pausa. Não há trégua. Não há um dia em que se possa simplesmente estar, sem precisar calcular resposta, medir reação, prever desdobramento.
E então até o gesto mais simples pesa.
Dizer “bom dia” vira esforço.
Responder vira concessão.
Sustentar presença vira quase um trabalho paralelo.
Não porque você perdeu a capacidade de se relacionar.
Mas porque já entendeu com quem não vale a pena.
E essa lucidez tem um preço estranho.
Ela não alivia imediatamente.
Primeiro, ela cansa.
Cansa porque desmonta a ilusão de que dá para ajustar tudo, de que dá para contornar, de que dá para encontrar um jeito de conviver melhor.
Às vezes não dá.
Às vezes o melhor que se pode fazer é reduzir.
Reduzir fala.
Reduzir acesso.
Reduzir disponibilidade.
Não por frieza.
Por preservação.
Porque há ambientes em que a energia não circula — ela é sugada. E, quando isso fica claro, insistir em se doar deixa de ser generosidade.
Vira desperdício.
Então não, não é preguiça.
Não é desânimo.
É exaustão seletiva.
O corpo já entendeu o que a mente demorou para aceitar:
há relações que não pedem mais esforço.
Pedem distância.
Mesmo que seja uma distância silenciosa, cotidiana, quase imperceptível.
Daquelas que começam assim:
um “bom dia” mais curto,
um olhar que não se prolonga,
uma presença que já não se oferece inteira.
E, aos poucos, isso basta.
Porque nem todo cansaço se resolve descansando.
Alguns se resolvem escolhendo melhor onde ainda vale a pena estar.
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