12 de junho #00352
Ela me chamou para almoçar e disse que precisava contar uma coisa pesada.
Não me assustei.
Pesado, naquele contexto, já tinha virado categoria recorrente da existência.
Toda semana havia uma tristeza nova. Uma injustiça. Um conflito. Um problema familiar. Uma decepção. A vida parecia ter escolhido nela uma correspondente oficial de más notícias.
Então fui para o almoço tentando adivinhar qual seria o desastre da vez.
Mas a notícia estava esperando num lugar mais escuro.
Quando ela disse.
Quando pronunciou o nome da doença.
Quando a palavra atravessou a mesa.
Alguma coisa dentro de mim ficou em silêncio.
Não porque eu não tivesse escutado.
Mas porque escutei demais.
Certas informações não chegam aos ouvidos.
Chegam às memórias.
Aos medos.
Aos corredores de hospital que continuam existindo dentro da gente muitos anos depois de termos saído deles.
Chegam aos enterros antigos.
Às despedidas que acreditávamos encerradas.
Às pessoas que vimos desaparecer.
Ela continuava falando.
Eu continuava ouvindo.
Mas uma parte de mim já estava ocupada tentando reorganizar o mundo.
Porque algumas notícias fazem isso.
Não mudam apenas o futuro de quem as recebe.
Mudam também o futuro de quem as escuta.
Em escalas diferentes.
Em intensidades diferentes.
Mas mudam.
E o universo, que possui um senso de humor bastante questionável, resolveu organizar essa cena justamente no Dia dos Namorados.
Enquanto os restaurantes preparavam menus especiais.
Enquanto as vitrines exibiam corações.
Enquanto floriculturas embalavam declarações de amor.
Enquanto casais escolhiam sobremesas para dividir.
Eu estava sentada diante de um diagnóstico.
Sem namorado.
Sem jantar romântico.
Sem planos.
Sem qualquer expectativa além de atravessar mais um dia comum.
Se eu acreditasse em roteiristas cósmicos, diria que alguém exagerou na construção simbólica da cena.
Era para eu estar ouvindo uma orquestra de metais no auditório ao lado.
Era para eu estar ouvindo música.
Mas estava ali.
Segurando um guarda-chuva num dia frio enquanto alguém depositava nas minhas mãos uma notícia que mal cabia nas dela.
E então surgiu a pergunta.
A pergunta proibida.
A pergunta feia.
A pergunta que toda pessoa minimamente decente tenta esconder.
E eu?
Quem esteve comigo?
Quem me acolheu quando eu precisei?
Quem sentou ao meu lado quando o medo entrou na minha vida?
Quem carregou parte das minhas cargas?
Quem interrompeu seus planos para me ouvir?
Quem me encontrou quando eu estava perdida?
A pergunta apareceu.
E eu gostaria de dizer que não apareceu.
Gostaria de dizer que fui imediatamente iluminada pela compaixão.
Que transcendi o ego.
Que me tornei uma dessas criaturas moralmente impecáveis que a literatura gosta de inventar.
Mas não.
Primeiro veio a conta.
A velha contabilidade emocional.
Eu acolhi.
Quem me acolheu?
Eu escutei.
Quem me escutou?
Eu chorei pelos outros.
Quem chorou por mim?
Existe uma parte de nós que mantém registros.
Ela não é bonita.
Mas também não é má.
É apenas cansada.
E quando o cansaço encontra a injustiça, começa a fazer inventários.
Talvez seja essa a voz que chamamos de sombra.
Aquela que bate na porta da consciência e pergunta:
E eu?
Ela tem família, marido, pai presente, parentes, amigos aos montes.
E eu?
Durante muito tempo achei que essa voz fosse egoísmo.
Hoje suspeito que ela seja apenas uma ferida tentando existir.
Porque não é crueldade desejar reciprocidade.
Não é falha moral querer acolhimento.
Não é pecado perceber assimetrias.
O problema começa apenas quando transformamos isso em cobrança contra quem também está sofrendo.
Mas não era ela a responsável pelas ausências da minha história.
Não era ela quem tinha falhado comigo.
Não era ela quem tinha deixado cadeiras vazias quando eu precisei.
Ela apenas estava doente.
E talvez assustada.
Talvez tão assustada quanto eu.
Porque ninguém recebe uma notícia dessas sem que o chão se mova alguns centímetros.
Existe uma expectativa silenciosa de que o amor saberá automaticamente o que fazer nessas horas.
Raramente sabe.
Ninguém nos ensina.
Não existe uma aula chamada "como reagir quando alguém que você gosta diz que está gravemente doente".
Não existe um protocolo.
Não existe um manual.
Você apenas senta.
Escuta.
E tenta não desmoronar antes da outra pessoa.
Porque a sociedade parece acreditar que quem recebe a notícia deve imediatamente assumir o papel de apoio emocional.
Como se a compaixão eliminasse o choque.
Como se o afeto anulasse o medo.
Como se a preocupação viesse acompanhada de treinamento especializado.
Não vem.
A pessoa fala.
E você vai recolhendo os pedaços da conversa e os pedaços de si mesma ao mesmo tempo.
Enquanto ela tenta lidar com a doença.
Você tenta lidar com a possibilidade da doença.
Enquanto ela encara exames, tratamentos e incertezas.
Você encara fantasmas.
Lembranças.
Ausências.
Histórias interrompidas.
E uma estranha culpa por ter ficado triste.
Porque imediatamente surge a voz disciplinadora.
Quem deveria estar sofrendo é ela.
Quem precisa de apoio é ela.
Quem precisa de força é ela.
E tudo isso é verdade.
Mas também é verdade que a notícia não pediu autorização para atravessar os outros.
Ela atravessou.
Porque vínculos existem.
Porque afeto não é uma estrada de mão única.
Porque quando alguém que amamos recebe uma ameaça, nós não continuamos intactos do lado de fora dela.
Entramos também.
Não da mesma forma.
Não com a mesma intensidade.
Mas entramos.
Talvez o universo não esteja tentando me ensinar a acolher.
Talvez eu já tenha aprendido isso há muito tempo.
Talvez a lição atrasada seja outra.
Talvez seja aprender que quem acolhe também precisa ser acolhido.
Que quem escuta também precisa falar.
Que quem sustenta também precisa descansar.
Que quem oferece abrigo não nasceu para morar eternamente do lado de fora da própria casa.
No fim, fiquei.
Escutei.
Compartilhei o peso possível.
E depois fui embora carregando minha parte daquela tristeza.
Mas também carregando uma conclusão incômoda.
Nem toda dor que sentimos diante do sofrimento dos outros nasce da compaixão.
Parte dela nasce da memória.
Da memória das vezes em que atravessamos desertos parecidos e encontramos menos companhia do que precisaríamos.
Talvez por isso tenha doído tanto.
Não apenas pela doença.
Mas pelo espelho.
Porque certas notícias não revelam apenas a fragilidade de quem as recebe.
Revelam também as cicatrizes de quem as escuta.
E talvez seja essa a ironia final.
Enquanto o mundo celebrava o amor romântico com flores, jantares e fotografias cuidadosamente enquadradas, eu passava a tarde refletindo sobre outra forma de amor.
Uma menos fotogênica.
Menos comercializável.
Menos instagramável.
Aquela que senta diante da dor sem saber o que dizer.
Aquela que continua presente mesmo quando gostaria de fugir.
Aquela que permanece.
Mesmo carregando suas próprias ausências.
Mesmo lamentando suas próprias faltas.
Mesmo perguntando silenciosamente quem fará o mesmo por ela quando chegar sua vez.
Porque talvez a forma mais triste do amor não seja amar quem sofre.
Talvez seja descobrir que continuamos amando mesmo quando ninguém nos ensinou a fazer isso conosco.
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