Agora você me vem com esta? #00348
Existe uma espécie curiosa de homem que acredita na paternidade como quem acredita em eclipse.
Sabe que acontece.
Já ouviu falar.
Reconhece os sinais.
Mas continua profundamente surpreso quando ocorre.
Durante a fase de fabricação, tudo parece bastante compartilhado.
O entusiasmo é compartilhado.
O desejo é compartilhado.
Os encontros são compartilhados.
Os riscos, curiosamente, já começam a ser menos compartilhados.
Mas a verdadeira mágica acontece depois.
Quando a criança surge.
Ali acontece uma transformação extraordinária.
O que era responsabilidade conjunta passa por um misterioso processo de evaporação masculina.
E reaparece integralmente no colo da mulher.
A ciência ainda não explicou o fenômeno.
Talvez algum laboratório esteja estudando.
Talvez seja um mecanismo semelhante ao desaparecimento das meias na máquina de lavar.
Ninguém sabe exatamente para onde vai a responsabilidade paterna.
Só sabemos que ela desaparece com impressionante frequência.
O mais curioso é que esses mesmos homens costumam viver momentos de grande entusiasmo estético com a paternidade.
Fotografam.
Postam.
Compram acessórios.
Empurram carrinhos.
Utilizam baby bags.
Sorriem em parques.
Carregam bebês nos ombros.
A sociedade inteira aplaude.
E eles realmente parecem felizes.
Porque existe uma diferença importante entre gostar da imagem da paternidade e assumir o trabalho da paternidade.
A primeira rende fotografias.
A segunda rende olheiras.
A primeira produz curtidas.
A segunda produz responsabilidades.
A primeira dura alguns segundos.
A segunda dura décadas.
Foi por isso que nunca esqueci uma frase.
Quando anunciei a gravidez, ouvi:
— Agora que precisamos nos separar, você me vem com esta?
Com esta.
Sempre achei fascinante o uso do pronome demonstrativo.
Não era um filho.
Não era uma criança.
Não era uma vida.
Não era um acontecimento produzido por duas pessoas adultas e plenamente conscientes dos mecanismos biológicos envolvidos.
Era "esta".
Como quem encontra um vazamento.
Uma multa.
Uma infiltração.
Um problema administrativo.
Naquele instante compreendi uma coisa.
Existe gente que acredita sinceramente que o próprio corpo participa do prazer, mas não participa das consequências.
Como se determinados órgãos masculinos fossem equipados com um sofisticado sistema de terceirização moral.
Entram em campo durante o processo.
Mas desaparecem antes da prestação de contas.
É uma tecnologia impressionante.
Você observa o sujeito durante anos defendendo responsabilidade individual.
Mérito.
Maturidade.
Autonomia.
Consequências dos próprios atos.
Mas basta aparecer um teste positivo e ele imediatamente se transforma num filósofo do acaso.
Um estudioso das fatalidades.
Um especialista em eventos inesperados.
Como se a gravidez tivesse sido produzida por uma intervenção meteorológica.
Talvez seja por isso que tantas mulheres amadureçam mais cedo.
Porque alguém precisa permanecer na sala quando a fantasia acaba.
Alguém precisa aprender que amor não é fotografia.
Não é postagem.
Não é passeio de domingo.
Não é performance.
É presença.
É repetição.
É responsabilidade.
É permanência.
É continuar aparecendo quando o encanto desaparece.
No fundo, talvez a pergunta nunca tenha sido por que tantos homens fogem da responsabilidade.
A pergunta mais interessante é outra.
Quem foi que os ensinou que ela nunca lhes pertenceu?
Porque ninguém nasce acreditando que filhos são assunto exclusivamente materno.
Isso é uma construção.
Uma tradição.
Uma conveniência cuidadosamente transmitida entre gerações.
E toda conveniência parece natural até o dia em que alguém decide descrevê-la em voz alta.
É nesse momento que ela começa a parecer exatamente o que sempre foi:
um privilégio fantasiado de normalidade.
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