Águas diferenciadas #00347

A criança chega ao mundo sem Stanley.

Sem copo térmico.

Sem garrafa inteligente.

Sem canudo ecológico.

Sem identidade visual.

Sem estratégia de posicionamento.

Chega apenas com sede.

Uma sede democrática.

Uma sede que não conhece classe social, raça, CEP ou faixa salarial.

Quando chora, alguém a alimenta. 

Direto do seio.

Quando tem sede, alguém lhe oferece água.

O corpo ainda não aprendeu a distinguir aquilo que o mundo logo ensinará.

Depois ela cresce.

Brinca na rua.

Corre.

Cai.

Levanta.

Bebe água na torneira do parque fazendo conchinha com as mãos.

E a torneira continua sendo uma das últimas comunistas em atividade.

A água cai para todos.

Sem entrevista.

Sem sindicância.

Sem auditoria patrimonial.

Mas a sociedade possui projetos mais ambiciosos.

Logo algumas crianças aprendem que não basta beber água.

É preciso beber pertencimento.

Ganham garrafinhas.

Depois ganham garrafas melhores.

Depois garrafas mais caras.

Depois garrafas que não servem apenas para carregar água.

Servem para carregar prestígio.

A sede continua a mesma.

Mas o recipiente passa a informar quem você é.

Ou quem gostaria desesperadamente de parecer ser.

Enquanto isso, outras crianças recebem uma educação diferente.

Não aprendem apenas a carregar água.

Aprendem a carregar justificativas.

Precisam explicar por que estão ali.

Por que entraram.

Por que estudam.

Por que ocupam espaço.

Por que falam daquele jeito.

Por que se vestem daquele jeito.

Por que chegaram tão longe.

Por que não parecem corresponder às expectativas que alguém construiu para elas.

Uma criança aprende que precisa comprar a garrafa certa.

A outra aprende que, mesmo comprando a garrafa certa, continuará sendo interrogada.

Quando a primeira aparece com uma Stanley, ela comunica sucesso.

Quando a segunda aparece com a mesma Stanley, às vezes comunica suspeita.

É sua?

Comprou como?

Ganhou de quem?

Pegou onde?

Tem certeza?

A água continua sendo água.

Mas o copo muda de significado dependendo de quem o segura.

É uma das perversidades mais elegantes da vida social.

O objeto é idêntico.

A interpretação muda.

Como se algumas pessoas recebessem automaticamente o benefício da confiança.

E outras recebessem apenas o benefício da dúvida.

Então os anos passam.

Uma aprende a trocar recipientes.

A outra aprende a trocar máscaras.

Uma tenta acompanhar tendências.

A outra tenta sobreviver às projeções.

Uma descobre que existe uma hierarquia dos objetos.

A outra descobre que existe uma hierarquia dos corpos.

E ambas vivem sob pressão.

Mas não sob a mesma pressão.

Porque uma corre o risco de parecer inadequada.

A outra corre o risco de jamais ser considerada adequada o suficiente.

E talvez seja essa a parte mais amarga.

Enquanto uma parcela da sociedade discute qual recipiente melhor representa seu estilo de vida, outra continua ocupada tentando provar que tem direito à própria existência.

Enquanto alguns transformam hidratação em estética, outros seguem transformando dignidade em defesa permanente.

Enquanto alguns acumulam objetos para comunicar valor, outros acumulam diplomas, títulos, competências e autocontrole apenas para receber metade da credibilidade distribuída gratuitamente aos demais.

A criança da torneira cresceu.

As duas cresceram.

Uma aprendeu que o mundo vende pertencimento.

A outra aprendeu que o mundo vende pertencimento, mas nem sempre entrega.

E talvez seja por isso que eu goste tanto da imagem da água.

Porque a água não participa dessa farsa.

Ela não sabe o que é raça.

Não sabe o que é classe.

Não sabe o que é status.

Não sabe o que é discriminação.

A água apenas atravessa.

Nós é que construímos os encanamentos da exclusão.

Nós é que fabricamos recipientes para hierarquizar aquilo que nasceu abundante.

Nós é que transformamos corpos em documentos eternamente sob análise.

No fim, a criança que bebia água na torneira e a criança que precisava justificar sua presença diante da torneira carregam uma tristeza comum.

Ambas foram ensinadas a se afastar da fonte.

Uma pela sedução.

A outra pela vigilância.

E talvez a história inteira da sociedade moderna possa ser resumida assim:

alguns aprenderam a confundir sede com status.

Outros foram obrigados a confundir sobrevivência com autorização.

E enquanto isso acontece, a água continua caindo.

Silenciosa.

Indiferente.

Assistindo aos adultos transformarem um gole em símbolo e um corpo em suspeita.

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