Aos porcos, meu respeito... #00341

Existe um tipo muito específico de pessoa que vive como protagonista absoluta de um filme que só ela está assistindo.
Os demais seres humanos aparecem apenas como: plateia emocional, central de suporte, assistência técnica afetiva, ou figurantes obrigados a reagir adequadamente ao roteiro interno dela.
O problema é que ninguém recebeu o script.

Então surgem diálogos completamente delirantes:
— O pacote chegou errado!!! 
— O que veio? 
— Tô nervosa!! 
— …mas veio errado como? 
— Quero descansar!!!

E você fica olhando para a conversa como quem caiu acidentalmente dentro de uma peça de teatro experimental financiada por edital público.
Porque aparentemente você deveria: adivinhar o site, adivinhar o produto, adivinhar a expectativa, adivinhar o trauma logístico, adivinhar a gravidade do ocorrido, e ainda oferecer acolhimento emocional compatível com a tragédia do álbum fotográfico.
Existe um esgotamento muito específico em conviver com pessoas que transformam qualquer contratempo cotidiano em centro gravitacional da realidade.
Elas não comunicam. Elas despejam estados emocionais brutos esperando que o outro organize o sentido.
E quando você faz perguntas normais, objetivas, humanas: “O que aconteceu?” “O que veio?” “Você abriu?” “Qual foi a resposta da empresa?”
A pessoa reage como se você estivesse conduzindo um interrogatório da Polícia Federal durante um colapso humanitário.
Porque no fundo ela não quer exatamente conversar.
Quer terceirizar tensão.
Existe gente que usa diálogo não para construir entendimento, mas para descarregar ansiedade diretamente no sistema nervoso alheio.
E talvez a parte mais curiosa seja esta: essas pessoas frequentemente acreditam ser extremamente sensíveis.
Mas observe: sensibilidade real inclui percepção do outro.
Quem realmente percebe o outro entende que ninguém possui acesso telepático ao próprio caos interno.
Então contextualiza. Explica. Elabora. Constrói narrativa. Considera que o interlocutor não nasceu acoplado ao seu córtex pré-frontal.
Mas certas pessoas vivem como se todos ao redor devessem operar com uma bola de cristal instalada no hipotálamo.
Você deve saber o contexto, o histórico, o tom, a urgência, o nível de drama, e o tipo exato de reação emocional exigida.
Tudo isso sem que ela te forneça informações suficientes.
É quase um RPG psicológico. 
Só que sem tutorial.
E existe ainda um detalhe delicioso: essas pessoas frequentemente chamam os outros de “difíceis de entender”.
Quando na verdade elas próprias se comunicam como notificações quebradas de aplicativo em surto.
“Deu ruim.” 
“Ódio.” 
“Não aguento mais.” 
“Olha isso.” 
“Absurdo.”
E você ali tentando montar arqueologicamente os fragmentos da civilização que colapsou dentro da cabeça da criatura.
Mas existe uma subcategoria ainda mais fascinante dessa fauna social: a criatura que responde perguntas com sons.
Não palavras. Sons.
“Ainnnn…” 
“Affff…” 
“Hm.” 
“Tá.” 
“Sério?”
“Meu Deus…”
Como se qualquer tentativa mínima de comunicação feita por outro ser humano fosse uma afronta pessoal à genialidade silenciosa que ela acredita possuir.
O curioso é que geralmente são pessoas convencidas da própria inteligência superior.
Mas incapazes de realizar uma das tarefas mais básicas da inteligência real: traduzir pensamento em linguagem compreensível sem humilhar o interlocutor.
Porque inteligência sem generosidade comunicativa frequentemente é apenas vaidade cognitiva performando superioridade.
E existe algo profundamente infantil nesse teatro.
A pessoa suspira. Revira os olhos. Grunhe. Produz pequenos ruídos de desprezo social como quem deseja deixar claro: “eu já sabia disso.” “essa pergunta é burra.” “você deveria adivinhar.” “eu sou intelectualmente sobrecarregada pela existência dos outros.”
Mas a vida tem um humor maravilhoso.
Porque frequentemente esse mesmo ser: esquece informações básicas, não ouve sugestões úteis, cria problemas evitáveis, e depois chega exatamente à conclusão que desprezou minutos antes.
Como o homem das mesas.
Você sugeriu desmontá-las para facilitar transporte, evitar peso excessivo e poupar esforço humano. Ele interrompeu. Cortou. Ignorou.
Hoje voltou para medir as mesas e concluir solenemente: — Melhor levar desmontadas.
Nenhum: “você tinha razão.” “boa observação.” “obrigado pela sugestão.”
Nada.
Porque certas pessoas acreditam que reconhecer contribuição alheia diminui autoridade própria.
E isso revela uma pobreza emocional gigantesca.
Gente madura incorpora inteligência coletiva. Gente insegura protege ego hierárquico até contra evidências simples.
Então surgem essas figuras extraordinárias: adultos funcionalmente alfabetizados, profissionalmente posicionados, mas emocionalmente incapazes de algo tão básico quanto: escutar sem competir.
E você percebe que não está lidando exatamente com inteligência. Está lidando com status intelectual performático.
A pessoa não quer compreender. Quer parecer quem compreende antes dos outros.
E por isso interrompe. Desdenha. Grunhe. Corta raciocínios. Descarta perguntas. Desidrata conversas.
Tudo isso para manter intacta uma autoimagem de superioridade operacional.
Alguém em algum lugar sempre menciona que seres humanos agem como porcos. E honestamente? Os porcos merecem retratação pública nessa comparação.
Porque o porco verdadeiro não performa arrogância, não pratica micro-humilhação, não usa sarcasmo hierárquico, não transforma comunicação em disputa de poder.
Ele apenas existe. Come. Dorme. Revira lama honestamente. Sem fingir sofisticação emocional.
Já certos humanos conseguem algo muito mais impressionante: transformar interações banais em pequenas experiências contínuas de desgaste psíquico.
E talvez o mais cansativo seja isto: não é a grande violência explícita.
É o acúmulo microscópico de: suspiros, tons, olhares, interrupções, grunhidos, desdéns, silêncios calculados, e pequenas recusas de reconhecimento.
Uma espécie de poluição emocional de baixa intensidade.
Sozinha parece pouca coisa. Mas diariamente corrói.
Ping. Ping. Ping.
Até a alma começar a mofar.
Talvez o maior erro dessas pessoas seja acreditar que comunicação serve para demonstrar superioridade.
Não serve.
Comunicação serve para construir ponte entre consciências.
Mas gente intoxicada por pequenas hierarquias transforma qualquer conversa em teste de valor humano.
Quem pergunta demais é burro. Quem explica demais é chato. Quem sente demais é fraco. Quem não adivinha é insensível.
E assim a convivência vai se tornando uma sucessão de pequenas provas emocionais clandestinas.
Talvez por isso tantas pessoas estejam cansadas sem saber exatamente do quê.
Não é apenas excesso de trabalho. É excesso de convivência truncada.
Excesso de gente que exige leitura mental enquanto oferece ruído. Excesso de pessoas que desejam acolhimento sem oferecer clareza. Excesso de egos frágeis escondidos atrás de tons impacientes. Excesso de adultos que nunca aprenderam a conversar sem descarregar tensão no corpo alheio.
E então você percebe uma verdade importante: existem pessoas das quais não queremos distância porque sejam monstruosas.
Queremos distância porque convivência contínua com elas vai lentamente nos desorganizando por dentro.
Como goteira emocional.
Ping. Ping. Ping.
Até a alma começar a mofar.
Por isso o afastamento às vezes não nasce de ódio.
Nasce da necessidade de preservação da nossa própria sanidade.

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