Arqueologia da vida #00334

Às vezes tento revisitar minha vida como quem abre caixas antigas num depósito mal iluminado.

Vou procurando: o que merece ser contado, o que merece ser analisado, catalogado, grifado, preservado.

Mas frequentemente encontro apenas material tóxico.

Resíduos emocionais deixados por outras pessoas.

Expectativas desleais.

Frases corrosivas.

Silêncios deformadores. 

Medos herdados. 

Vergonhas implantadas por terceiros como quem despeja entulho no terreno vazio de alguém.


Existe gente que atravessa a vida produzindo lixo psíquico industrial.

E existem pessoas como eu: catadores emocionais involuntários daquilo que os outros não elaboraram.

Mas o curioso é que, quando volto ainda mais no tempo, antes da ferrugem humana começar a se acumular sobre mim, encontro outra coisa.

Uma menina.

E ela não parecia doente.

Ela gostava de conhecer o mundo. Testar possibilidades. Imaginar. Acarinhar. Ajudar. Brincar.

Corria por correr. Pulava porque o corpo pedia movimento. Balançava por horas numa rede ou num parque sem precisar transformar aquilo em produtividade, desempenho ou validação estética.

Ela mergulhava no mar sem pensar em metabolismo. Sem calcular calorias. Sem projetar envelhecimento. Sem imaginar parecer inadequada para alguém.

Era apenas corpo.

Pele. Ossos. Respiração. Movimento. Vida.

Até que chegaram as observações humanas.

Porque o mundo possui uma compulsão quase religiosa por estragar a espontaneidade alheia.

Então começaram as críticas. As correções. As previsões catastróficas. Os comentários sobre aparência. Sobre futuro. Sobre fracasso. Sobre inadequação. Sobre risco. Sobre tudo aquilo que poderia dar errado comigo algum dia.

E foi assim que adoeci de futuro.

Passei a desejar me enxergar velha.

Não por maturidade. Nem por serenidade filosófica.

Mas como quem lê desesperadamente os últimos capítulos de um livro antes de decidir se suporta continuar a leitura.

Eu queria saber se minha versão velhinha me diria: “vale a pena continuar.”

Queria descobrir se no fim da estrada ainda existiria alguma vontade de: sorrir, amar, acolher, sentir, descobrir, mergulhar no mar, ou simplesmente existir sem tanto peso simbólico colocado pelos outros.

Porque existe um cansaço muito específico em ser continuamente transformada em recipiente das projeções humanas.

Uns despejam medo. Outros despejam inveja. Outros despejam controle. Outros despejam expectativas impossíveis. E muitos ainda esperam gratidão pela violência elegantemente embrulhada em “conselhos”.

Hoje percebo algo quase irônico: passei anos acreditando que minha maior tarefa seria sobreviver às tragédias da vida.

Mas talvez a tarefa mais difícil tenha sido proteger aquela menina inicial da contaminação completa.

A que ainda sabia brincar. A que ainda conseguia existir sem se observar o tempo todo. A que não transformava cada sensação em análise clínica, estética ou moral.

E talvez ela nunca tenha desaparecido completamente.

Talvez esteja apenas soterrada sob camadas sucessivas de mundo.

Porque apesar de tudo, continuo querendo entender. Continuo querendo criar. Continuo querendo transformar dor em linguagem ao invés de transformar linguagem em cinismo.

Isso deve significar alguma coisa.

Talvez esperança não seja felicidade.

Talvez esperança seja simplesmente isto: a recusa em deixar que a crueldade humana determine sozinha o tom final da própria narrativa.

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