Cordialmente,... #00336
Esse texto pode parecer uma peça de acusação filosófica contra a burocracia emocional contemporânea.
Valemo-nos dos exageros para expor o que é ridículo, insensato e o que se deve parar de ser produzido no meio humano.
Voilá!
Aos fatos:
Outro dia um Superior disse que deveríamos ser mais cordiais nos e-mails.
Achei curioso.
Porque cordialidade institucional costuma funcionar como perfume aplicado em ambiente com vazamento de gás.
A prioridade nunca é resolver o vazamento. É manter aparência respirável.
O problema nunca é a negligência. É a má impressão que a negligência possa causar.
Não importa que pessoas aguardem meses por respostas capazes de alterar suas vidas. Não importa que demandas desapareçam em gavetas digitais. Não importa que trabalhadores adoeçam tentando sustentar estruturas emocionalmente falidas. Não importam os contextos. Importa que o e-mail termine com: “Cordialmente.”
O capitalismo burocrático desenvolveu uma obsessão estética pela delicadeza superficial.
Tudo precisa soar: leve, profissional, equilibrado, institucionalmente elegante.
Mesmo quando está destruindo alguém.
Esse mesmo Superior também orientou, obedecendo ordens ainda mais superiores, que certas respostas evitassem assinatura individual.
Segundo essa lógica administrativa iluminada, a mensagem deveria sair apenas “em nome do departamento”.
Uma estratégia interessante.
A pessoa recebe uma informação potencialmente prejudicial: impessoal, burocrática, sem rosto, sem autoria, sem responsabilização clara.
O famoso: ninguém disse, mas foi dito. Ninguém decidiu, mas a decisão apareceu. Ninguém responde, mas alguém sofre as consequências.
A despersonalização é uma das grandes covardias elegantes das instituições modernas.
O problema nunca é a violência. É apenas impedir que ela tenha assinatura reconhecível.
A violência moderna prefere usar crachá coletivo.
“Departamento.” “Setor.” “Coordenação.” “A gestão.”
Entidades abstratas são excelentes esconderijos morais.
Porque quando ninguém assina, ninguém sente culpa. E quando ninguém sente culpa, a brutalidade pode circular climatizada pelos corredores sem produzir escândalo.
Existe algo profundamente adoecido em ambientes onde a rastreabilidade de processos é mais importante que a rastreabilidade ética das decisões.
E o mais fascinante é que esse mesmo homem já preencheu avaliação de carreira — evento raríssimo, com periodicidade semelhante à do Cometa Halley — com a mesma presença de espírito de quem entra no banheiro sem verificar se havia papel higiênico e sai do sanitário anunciando: — Ui, fiz merda!
Talvez tenha sido o comentário mais honestamente coerente de sua trajetória administrativa.
Porque ali, pela primeira vez, houve alinhamento entre: ação, consequência, e linguagem.
Mas essa honestidade fisiológica curiosamente desaparece quando se trata da vida dos outros.
Meses sem responder pessoas? Normal.
Demandas ignoradas? Normal.
Silêncios institucionais comprometendo vidas? Normal.
Exposição indevida de informações delicadas em reuniões? Normal.
Outro dia, diante de uma mesa cheia de servidores, ele anunciou casualmente: — Fulana de férias. Fulano de licença-paternidade. Sicrana com câncer.
Como quem atualiza estoque de almoxarifado.
Sem perceber que algumas palavras possuem peso humano antes de possuir valor informativo.
Saí da sala segurando o choro diante da impressora.
Ele provavelmente nem percebeu.
Talvez ainda estivesse anestesiado pelos aplausos internos que algumas pessoas recebem desde a infância apenas por existirem funcionalmente. Aquele entusiasmo maternal básico: “Fez cocô? Que bom! Tchau, cocô!”
Memórias maternais recorrentes?
Ou talvez existam realmente pessoas que confundem ausência de sensibilidade com objetividade profissional.
E isso é perigosíssimo quando associado a qualquer forma de poder.
Porque poder nas mãos de gente sem elaboração emocional produz devastação burocraticamente organizada.
O mais impressionante é que ele não parece exatamente mal-intencionado.
Só brutalmente desconectado das consequências humanas da própria atuação.
É o tipo de pessoa que ouve parcialmente, conclui precipitadamente e já começa a redistribuir decisões, informações e impactos sobre vidas alheias como quem negocia chapéus que nunca comprou.
Outro dia uma colega resumiu perfeitamente: — Exagerado. Desnecessário.
Ainda tentei pensar: “Um dia ele aprende.”
Mas talvez exista uma verdade desconfortável demais aí: nem toda pessoa deveria ocupar espaços de poder apenas porque aprendeu procedimentos administrativos.
Porque gerir gente exige mais do que distribuir tarefas.
Exige consciência de impacto.
E talvez esse seja um dos maiores fracassos contemporâneos: confundimos competência técnica com maturidade humana.
A sociedade inteira parece organizada assim.
Pessoas historicamente oprimidas sonham em alcançar poder. Mas muitas vezes sem elaborar a lógica da própria opressão.
Então não transformam estruturas. Apenas trocam de lugar dentro delas.
O oprimido vira opressor usando linguagem de superação pessoal. E o mundo chama isso de progresso.
Enquanto isso seguimos assistindo programas onde alguém canta alegremente: “Eu sempre quis ser patroa…”
E talvez essa seja a tragédia mais sofisticada: até nossos sonhos continuam organizados pela lógica da dominação.
Ninguém quer abolir a estrutura. Só deseja ocupar o andar de cima.
Perdemos todos nisso.
Perdemos sensibilidade. Perdemos criticidade. Perdemos capacidade pedagógica. Perdemos leitura profunda do mundo.
Já não conseguimos enxergar relações humanas sem atravessá-las com: hierarquia, controle, status, medo, submissão, ou desejo de validação.
Então surgem as soluções rasas: “Sejamos mais cordiais.”
Como se violência suavizada por vocabulário elegante deixasse de ser violência.
Como se frases educadas compensassem omissões estruturais.
Como se um “atenciosamente” no rodapé neutralizasse meses de abandono administrativo cuidadosamente protocolado.
Não precisamos de cordialidade performática.
Precisamos de: responsabilização, clareza, escuta, consciência humana, maturidade emocional, e coragem ética para ocupar poder sem transformar gente em dano colateral de planilhas.
Porque responder e-mails com delicadeza enquanto se destrói pessoas nos bastidores não é civilização.
É apenas barbárie usando blazer e assinatura institucional.
E talvez esteja aí uma das grandes especialidades do nosso tempo: coar mosquitos enquanto os camelos atravessam tranquilamente a sala de reunião.
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