Corpo estranho no retrato da família #00329

Naquela casa, Deus morava oficialmente na sala.

Havia versículos nas paredes, Bíblias espalhadas em cada ambiente, hinos ecoando no domingo e um cuidado quase militar para que as meninas permanecessem “direitas”.

Direitas no vestir, no sentar, no falar, no existir. 

A família era dessas que sorri para a foto do culto enquanto empurra os próprios demônios para debaixo da toalha rendada da mesa.

Eu era o corpo estranho da casa.
Não filha. Não sangue. Não pertencente.

Uma presença tolerada entre copos de vidro decorado, móveis encerados e medos religiosos mal digeridos.

Como toda família excessivamente preocupada em parecer santa, aquela também precisava de um culpado metafísico para explicar os próprios desastres emocionais.

E eu era perfeita para o papel.

Quieta demais. Triste demais. Observadora demais. Esquisita demais.

Enquanto as filhas legítimas cresciam sob vigilância celestial, eu crescia como uma espécie de suspeita ambulante. 

Olhavam para mim como quem observa um gato preto atravessando o corredor na sexta-feira da paixão.

A questão é que o mal da casa nunca vinha de fora.
Mas ninguém queria admitir isso.

As meninas viviam aos sussurros. Olhares entrecortados atualizavam entre si os capítulos dos romances escondidos. 

Sofriam infecções urinárias recorrentes que oficialmente eram atribuídas à meia fina usada o dia inteiro, ao excesso de horas no trabalho, à dificuldade de ir ao banheiro, ao frio, ao nervosismo, à correria da vida moderna.
Tudo, menos às possibilidades mais óbvias que atravessavam silenciosamente os corredores daquela casa santa.

Presentes diferenciados apareciam. Perfumes. Objetos caros demais para certos salários. Gentilezas masculinas excessivamente generosas. Favores. Caronas. Pacotes discretamente guardados.
Mas ninguém queria enxergar nada diretamente.

Famílias moralistas possuem um talento extraordinário para interpretar sinais apenas até o ponto em que a interpretação ameaça desmontar a fantasia doméstica.
Então preferia-se culpar a estrangeira pelas desgraças todas.

Porque era mais confortável imaginar uma espécie de influência espiritual maligna emanando da menina estranha do que admitir que as filhas perfeitas também tinham: corpo, desejo, contradições, segredos e imprudências humanas absolutamente comuns.

Lembro do período em que uma das meninas estava internada, outra adoecia repetidamente e a mais nova anunciava casamento às pressas, como quem tenta organizar moralmente as consequências biológicas da juventude.

A casa inteira estava em tensão espiritual.
O céu parecia pesado de tanto “repreender em nome de Jesus” tudo aquilo que ninguém sabia nomear direito.

Quando gravidezes e abortos não eram mais possíveis de serem ocultados, ela teve coragem de despejar sobre mim o que sempre quisera perguntar:

— O que você tem contra as meninas?

Até hoje acho essa frase uma obra-prima involuntária da tragédia cristã brasileira.

Eu tinha quase vinte anos. Depressiva. Abandonada pela família original. Tentando entender por que Deus distribuía infância como quem joga cartas bêbado numa mesa de bar. Tentava entender o que eu ainda fazia naquela casa. Tentava entender se tinha adquirido dívidas morais e se conseguiria pagar com dinheiro em espécie. 

Eu não conseguia sequer cuidar das minhas próprias tristezas direito e tendo que me constituir como ser humano a partir de todo o arsenal conservador que me era despejado diariamente como se fosse verdade absoluta.

Já havia enfrentado traições, desilusão e mal conseguia enxergar um futuro feliz para mim. E os meus isolamentos frequentes eram as únicas frestas por onde eu conseguia respirar sem enlouquecer completamente. Mas eu chegava a duvidar de mim e procurava entender onde tanto eu mais incomodava do que colaborava com a fama da família.

E passei a suspeitar que aparentemente eu possuía mesmo poderes ocultos capazes de desorganizar úteros, hormônios, relacionamentos e escolhas sexuais à distância.
Impressionante.

Passei dias tentando lembrar em qual momento exatamente eu havia feito feitiços hormonais clandestinos pelos corredores daquela casa capazes de fazer pernas se abrirem.
Talvez enquanto eu lavava banheiros até o teto, lavava pilhas de louças, lavava o chão, ou passava as camisas impecáveis do homem da casa, eu tivesse aberto portais uterinos satânicos sem perceber.

E eu pensava sinceramente: se eu cometia pecados nesse nível, talvez os trabalhos domésticos impostos sob o discurso de que eu era “uma filha do coração”, quase da família, fossem um pagamento minimamente justo diante da minha periculosidade espiritual.

A verdade é que aquela mulher estava apavorada.

Não comigo.

Com a vida.

Com o fracasso da fantasia da família perfeita. Com a descoberta de que filhas não permanecem puras só porque a mãe vigia o tamanho de suas saias. Com o fato de que oração não impede desejo. Nem gravidez. Nem sofrimento mental. Nem solidão feminina. Nem relações irresponsáveis escondidas atrás de cultos dominicais impecáveis.

Mas algumas pessoas, quando não suportam a realidade, preferem fabricar bruxas.
E eu servia perfeitamente.

Toda casa moralista precisa de uma mulher estranha para concentrar o mal simbólico do ambiente.

Enquanto isso, os preconceitos da família continuavam intactos. 
As crueldades pequenas continuavam intactas. 
Os silêncios violentos continuavam intactos. 
As aparências seguiam engomadas para o culto.
Porque o importante nunca foi saúde emocional.
Era estética da santidade.

Eu vivia deprimida naquele lugar.
Mas depressão de menina obediente quase nunca preocupa alguém.

Desde que: ela fale baixo, não engravide, não dê escândalo, e continue cabendo dentro do vestido correto, a tristeza feminina vira apenas “temperamento”.

A anorexia passou despercebida. O isolamento virou “personalidade”. A melancolia virou “sensibilidade”.

Desde que eu não aumentasse custos de nenhuma sorte, a casa seguia funcionando: Jesus na parede, culpa nos quartos, e fantasmas emocionais circulando livremente pelos corredores assepticamente limpos da família cristã exemplar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ao início de tudo, um olá! #001

Cá entre nós... #002

Em busca de nós mesmos #004