Desligue seu projetor! #00344

Existem pessoas que não enxergam ninguém.

Elas apenas projetam.

Encontram um corpo disponível, uma escuta minimamente gentil, uma inteligência viva, uma presença que não as agride imediatamente… e pronto: começam a fabricar uma personagem em cima de você.

É quase artesanal.

Primeiro vem o encantamento:
 “Você é diferente.”
 “Você me entende.”
 “Nunca conheci alguém assim.” 
“Você é tão leve.” 
“Tão forte.”
 “Tão evoluída.”
 “Tão isso.” 
“Tão aquilo.”

E você, feito o Cândido que ainda acredita em encontros humanos minimamente honestos, pensa: 

“Talvez agora alguém esteja realmente me vendo.”

Mas não.

A pessoa não viu você.

Viu um espelho emocional onde pudesse admirar a própria carência maquiada de profundidade.

Porque enxergar alguém de verdade dá trabalho. 

Exige abandonar projeções. 
Exige suportar contradições. 
Exige aceitar que o outro não nasceu para ocupar um papel terapêutico dentro do seu teatro mental.

Mas a maioria não quer relação. 
Quer consumo simbólico. 

Dopamina rápida.

Gerar uma boa dose de ocitocina demora demais!

E eu comecei a perceber um padrão curioso: quanto mais eu estudava meu interior, mais apareciam pessoas determinadas a simplificar minha existência até caber no roteiro psicológico delas.

Enquanto eu analisava feridas, lia absurdamente, tentava compreender meus pontos cegos, engolia culpas ancestrais, reorganizava traumas, aprendia a não ferir os outros com minhas dores, tentava cooperar, expandir consciência, criar beleza apesar do caos…
…aparecia alguém resumindo tudo isso a: “Você é sensível.”
 Ou: “Você é difícil.” 
Ou: “Você é intensa, precisa de terapia"...

Ou pior: 
“Você precisa relaxar.”

Como se anos de elaboração humana pudessem ser reduzidos à legenda emocional preguiçosa de quem não suporta complexidade.

E há algo profundamente ofensivo nisso.

Porque pessoas rasas adoram diagnosticar profundidade como defeito operacional.

Você passa décadas refinando percepção. 

A criatura passa cinco minutos projetando inseguranças em você e já acha que te compreendeu completamente.

É uma arrogância quase religiosa.

E o mais irônico: essas mesmas pessoas costumam exigir serem vistas “como realmente são”.

Querem acolhimento. 
Querem escuta. 
Querem nuance. 
Querem contexto para seus erros. Querem compreensão para seus surtos. Querem que o mundo considere suas dores invisíveis.
Mas oferecem aos outros caricaturas.

Se você é gentil: fraco.

Se impõe limite: agressivo.

Se observa antes de falar: estranho.

Se percebe manipulação: paranoico.

Se sofre injustiça: sensível demais.

É impressionante como gente emocionalmente preguiçosa transforma qualquer consciência crítica em defeito de personalidade.

E talvez meu verdadeiro cansaço tenha começado aí: na percepção de que muita gente se aproxima não para encontrar você… mas para confirmar fantasias próprias.

Elas querem: a amiga brilhante, a mulher misteriosa, a sensitiva, a intelectual, a forte, a ferida, a engraçada, a diferente.
Mas raramente suportam a pessoa real quando ela atravessa a fantasia e diz: “Não. Isso que você inventou não sou eu.”

Porque aí o encanto quebra.

A projeção perde estabilidade.

E a pessoa se irrita como criança contrariada diante de brinquedo que ganhou autonomia.

Então começam os pequenos castigos: grosserias sutis, silêncios, deboche, diminuições, comentários passivo-agressivos, tentativas de te reduzir à versão mais confortável para elas.

Como se dissessem: “Volte imediatamente ao personagem que construí para consumir sem esforço.”

"Você é minha boneca!!"

Só que não.

Passei tempo demais reorganizando meus próprios abismos para aceitar virar fantasia emocional de terceiros.

Pra longe de mim quem não consegue sustentar a experiência radical de enxergar outro ser humano sem transformá-lo em extensão narcísica.

A essas pessoas eu ofereço apenas uma coisa: a desilusão.

Porque ser mal compreendida dói. Mas ser idealizada corrói.

A incompreensão ao menos admite distância. 

A idealização sequestra sua integridade.

E talvez exista uma elegância cruel em decepcionar quem nunca quis realmente te conhecer.

Algumas pessoas precisam perder o acesso à fantasia para finalmente entender: o outro não nasceu para caber dentro da imaginação limitada delas.

E honestamente?

Quem se encanta apenas com a versão inventada de mim merece mesmo errar meu endereço.

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