Devoluções #00330

Um dia me disseram que nunca me mandariam embora.

Era uma dessas promessas emocionais que famílias e instituições fazem quando querem parecer moralmente grandiosas diante de si mesmas.

Mas eu percebia a oscilação constante. Eu vivia isso dentro de mim como uma coisa esperada, pois já havia sido devolvida de outras casas antes. 

Mas nesta casa as pessoas viviam suspensas entre desenvolver afeto por uma ninguém como eu e descartar minha presença com alguma justificativa conveniente.

A ameaça às vezes vinha silenciosa. No olhar eu já entendia o que queriam dizer e prontamente obedecia. 

Às vezes explícita:

- Está pensando que aqui é a maloca onde mora sua mãe? Quer voltar pra lá?

Os rompantes vinham por causa de uma ou outra roupa esquecida em cima da cama. O pecado mortal que qualquer criança e adolescente, e até adultos cometem.

Às vezes a ameaça vinha embalada em correções espirituais, conselhos “para o meu bem” ou comentários aparentemente banais.

- Deus quer sempre o melhor para você.

Mas estava sempre ali: a possibilidade de devolução.

Como quem mantém uma mala perto da porta caso o objeto acolhido comece a ocupar espaço demais na casa emocional.

Embora eu vivesse com minhas poucas coisas encaixotadas, aguardando o momento da possível expulsão, e embora as pessoas vivessem torcendo para que sim, eu nunca lhes dava um motivo grave.

Não bebia. Não causava escândalos. Não engravidava. Não fugia. Não enfrentava ninguém diretamente.

Eu era obediente.

Ia à igreja. Estudava. Trabalhava. Orava. Pregava. Voltava para casa. Lavava as coisas. Passava as roupas. Executava todas as funções invisíveis que sustentam silenciosamente a vida confortável dos outros.

Fui me tornando especialista em assumir aquilo que ninguém queria fazer.

Anos depois, já adulta, trabalhando numa instituição de ensino superior, recebi um e-mail contendo uma expressão curiosa: você será deslocada para “atividades descobertas.”

E algo dentro de mim imediatamente reconheceu aquela linguagem.

Porque eu conhecia aquilo desde muito antes do mundo corporativo sofisticar a exploração através de terminologias elegantes.

Atividade descoberta é o nome técnico daquilo que todos evitam até encontrar alguém condicionado a resolver sem reclamar.

Na infância: lavar banheiro, passar roupa, limpar excessos emocionais da casa, absorver tensões.

Na vida adulta: organizar caos, resolver ruídos, estruturar demandas confusas, traduzir problemas impossíveis, dar forma ao que ninguém quis assumir.

- Joga na mão dela. Ela resolve.

E eu resolvia mesmo.

Em minutos, coisas pesadas viravam processos leves. Quem lida com o caos constantemente, desenvolve critérios e prioridades. Demandas desordenadas que ninguém consegue resolver viravam algo até interessante. Então, depois que o terreno estava limpo, organizado e funcional, surgiam pessoas querendo ocupar o espaço já preparado e colher prestígio sobre aquilo que antes desprezavam.

Esse padrão não aparecia só no trabalho.

Uma irmã de criação fazia algo parecido com roupas.

Comprava compulsivamente. Consumismo puro. Talvez ansiedade vestida de vitrine.

Depois, afogada no cartão de crédito, vinha me oferecer peças “a preço de custo”.

Mas havia um detalhe importante: ela nunca repassava as peças que ela considerasse realmente bonitas. E não me repassava as que eram realmente as mais caras. 

Entregava as roupas estranhas. As difíceis. As encalhadas. As que não funcionavam nela. As que já vinham marcadas pelo fracasso estético. Os seus erros estéticos.

E eu aceitava.

Pagava. Vestia. E inexplicavelmente fazia aquilo funcionar.

A peça ganhava forma. Presença. Beleza.

E então ela a pedia de volta.

Porque algumas pessoas suportam te ver útil. Suportam te ver funcional. Até suportam te ver sofrendo.

O que elas não suportam é descobrir que você consegue transformar sobra em potência.

Porque isso desmonta uma hierarquia invisível.

A roupa feia deveria permanecer feia em mim.

A tarefa desprezada deveria continuar desprezada em minhas mãos. 

O lugar inferior deveria produzir aparência inferior.

Mas não.

Existe gente que carrega uma espécie de alquimia involuntária.

Transforma resto em linguagem. 

Caos em estrutura. 

Peso em arte. 

Abandono em percepção.

E talvez tenha sido exatamente isso que certas pessoas nunca conseguiram me perdoar: eu sobrevivia esteticamente aos ambientes.

Mesmo quando os lugares eram feios.

Mesquinhos.

Violentos. 

Burocráticos.

Pequenos de espírito.

Havia algo em mim que ainda encontrava a beleza no improvável.

Não beleza decorativa. 

Não positividade artificial dessas frases corporativas plastificadas.

Mas beleza vital.

A capacidade de criar presença, humor, inteligência, delicadeza ou imaginação mesmo dentro de ambientes emocionalmente mofados.

Uma vez, enquanto eu atravessava uma situação profissional particularmente cruel, uma colega de trabalho me perguntou repetidamente:

— Mas para onde você deseja ir?

Ela insistia na pergunta com aquele tom aparentemente preocupado que certas pessoas usam quando, na verdade, estão apenas farejando vulnerabilidades.

Enquanto eu chorava por algo muito maior e mais complexo, ela parecia menos interessada na minha dor do que em coletar informações estratégicas.

Queria entender: qual era meu plano, quem eu conhecia, para onde eu fugiria, qual porta ainda poderia se abrir para mim.

Porque gente invejosa raramente suporta o desconhecido do outro. Precisa mapear possibilidades para continuar se sentindo segura na própria hierarquia mental.

Então eu respondi algo que saiu quase sem pensar:

— Nenhum lugar será melhor do que o lugar em que eu estiver.

Ela ficou em silêncio.

Talvez porque esperasse ouvir: “quero ir para um setor melhor”, “quero crescer”, “quero reconhecimento”, “quero fugir daqui”.

Mas minha resposta desmontava a lógica inteira.

Porque eu já tinha entendido uma coisa importante: existem pessoas que entram num ambiente e imediatamente começam a apodrecer o espaço ao redor.

Outras fazem o contrário.

Elas chegam e alguma coisa respira.

A conversa melhora. O humor muda. As ideias circulam. As pessoas menos invisíveis começam a existir um pouco mais. Até a feiura institucional perde força por alguns minutos.

E isso não depende de cargo. Nem de salário. Nem de status.

É presença.

A depender das pessoas, elas transformam qualquer lugar num inferninho administrativo, emocional ou doméstico.

A depender de outras, o ambiente ganha humanidade.

Eu compreendi ao longo da vida que quando a beleza está dentro de você, não é preciso encontrar um lugar bonito para finalmente existir em paz.

A beleza estará onde você estiver. Isso não se tira. Nem se pega de volta. Nem se devolve à fonte. 

Isso não se aprende em treinamento corporativo. 

Não se compra em curso de liderança. 

Não se adquire repetindo frases sobre empatia em seminários institucionais.

Nem se encontra em sites de inspirações. 

Não é o tipo de coisa que seja possível alfinetar como um objeto de interesse qualquer.

Ou se é.

Ou não se é.

E talvez seja exatamente isso que incomode tanto certas pessoas: a constatação silenciosa de que existem seres capazes de gerar calor humano sem precisar controlar ninguém para isso.

Enquanto outras, mesmo cercadas de títulos, dinheiro, protocolos, status e verniz intelectual, seguem produzindo o que é possível com suas letras frias...

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