Gentileza seletiva #00332
Ele abriu a porta devagar para perguntar se o barulho da reforma estava me incomodando.
Uma delicadeza rara.
Quase comovente.
Principalmente vinda do mesmo homem que, dias antes, me viu agachada debaixo da mesa procurando número de patrimônio enquanto eu tentava mover uma cadeira pesada sozinha e não esboçou sequer o reflexo humano de ajudar.
Mas naquele dia havia algo diferente em sua voz.
Doçura.
Cuidado.
Uma preocupação arquitetonicamente posicionada entre o profissionalismo e o charme envelhecido de certos homens acadêmicos que acreditam permanecer interessantes porque ainda conseguem modular o próprio tom de voz.
Então entendi.
Ele não tinha vindo por minha causa.
Ele acreditava que encontraria ali o objeto delicadamente oriental de seu interesse.
A japonesa dos olhos dele.
Mas deu com os burros na minha cara.
Só eu estava na sala.
E foi curioso observar como certos homens perdem subitamente parte da sofisticação quando percebem que não há plateia afetiva disponível.
A delicadeza murcha. O corpo relaxa. A voz volta ao normal. A humanidade seletiva recolhe suas antenas.
Esse mesmo senhor já havia aparecido outras vezes procurando por ela. Numa ocasião, encontrou apenas a ausência: licença médica. Pé quebrado.
Interessante como alguns homens conseguem localizar instantaneamente a cadeira vazia da mulher que desejam, mas não enxergam uma mulher real carregando peso diante deles.
Talvez porque desejo seja mais estimulante que empatia.
E talvez porque parte da chamada “gentileza masculina” nunca tenha sido exatamente gentileza.
Era cortejo.
A diferença é brutal.
Gentileza ajuda qualquer pessoa a levantar uma mesa pesada. Cortejo ajuda apenas mulheres específicas sob iluminação emocional favorável.
O restante recebe racionalidade, pressa ou autoridade.
Esse tipo de homem costuma se posicionar como dono técnico das situações.
Interrompe. Corrige. Corta raciocínios no meio. Descarta sugestões antes mesmo de ouvi-las completamente.
Outro dia tentei argumentar que talvez fosse mais inteligente desmontar algumas mesas antes de obrigar trabalhadores a carregá-las inteiras escada abaixo.
Volume. Peso. Risco físico. Lógica simples.
Mas certos homens não gostam de escutar mulheres antes que outro homem valide a mesma ideia cinco minutos depois.
Então ele me cortou com aquela segurança típica dos medíocres funcionais: a convicção arrogante de quem confunde hábito com inteligência.
Ainda assim, bastava imaginar a presença dela para que a voz adoçasse novamente.
E o mais fascinante é perceber como os semelhantes se reconhecem.
Ela também possui sua própria distribuição seletiva de delicadezas.
Para homens: voz baixa, doçura, escuta, risos, maciez performática.
Para mulheres: competição, agressividade, controle, comentários venenosos disfarçados de sinceridade.
Para enteadas e serviçais, gritos.
Para seres periféricos, desprezo higiênico.
“Moleques sujos.” “Fedidos.” “Insolentes.”
Curioso como certas pessoas defendem diversidade em seminários enquanto praticam eugenia emocional nos corredores.
A doçura delas também é hierárquica.
Não oferecem humanidade. Oferecem tratamento superior para quem valida ego, desejo ou status.
O restante recebe frieza administrativa.
No fundo, talvez seja isso que mais me intrigue nas instituições: a quantidade de gente que performa civilidade sem jamais ter desenvolvido delicadeza verdadeira.
Porque delicadeza real não muda de tom conforme a utilidade social do interlocutor.
Quem só trata bem quem deseja, teme ou admira não é gentil.
É apenas estrategista social com perfume caro, cerveja especial e voz modulada.
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