Isso não é só sobre cabelos #00353
A primeira providência dos adultos foi cortar-lhe os cabelos.
Não conversar.
Não acolher.
Não explicar.
Não perguntar o que ela sentia.
Primeiro os cabelos.
A menina acabara de perder quase tudo o que uma criança reconhece como mundo.
A casa.
A rotina.
As referências.
Os vínculos.
Os rostos.
As vozes.
As certezas.
Foi levada para outra família, outra história, outra vida.
Mas ninguém parecia especialmente interessado em entender o que acontecia dentro dela.
O que precisava de ajuste, segundo os adultos, era o que aparecia do lado de fora.
Vieram roupas novas.
Boas maneiras.
Novas regras.
Novos hábitos.
E novos cabelos.
A mãe da casa trabalhava com beleza.
O primeiro namorado que apareceu anos depois também vinha de uma família da estética.
Curiosamente, uma das primeiras coisas que fizeram foi levá-la a outro salão.
E novamente alguém decidiu o que seus cabelos deveriam ser.
Ela obedecia.
Não porque gostasse.
Não porque concordasse.
Mas porque crianças em situação de sobrevivência aprendem rapidamente uma regra fundamental:
é melhor perder alguns fios do que perder o teto.
Ela aceitava os cortes.
Aceitava as mudanças.
Aceitava as correções.
O que nunca conseguiu entender foi a obsessão.
Por que os cabelos pareciam preocupar tanto as pessoas?
Seu pai biológico, ausente em quase tudo que realmente importava, um dia protagonizou uma discussão monumental porque haviam cortado os cabelos da filha.
Era uma cena curiosa.
O homem que nunca soube cuidar da menina parecia profundamente preocupado com os fios que saíam de sua cabeça.
Como se a autoridade fosse mais fácil de exercer sobre cabelos do que sobre abandonos.
Anos depois, olhando para trás, ela começou a suspeitar que o problema nunca tinha sido o cabelo.
O cabelo era apenas o sintoma visível de algo que os adultos não conseguiam nomear.
As pessoas têm uma relação estranha com aquilo que não compreendem.
O que não entendem, tentam corrigir.
O que não conseguem interpretar, tentam enquadrar.
O que foge ao padrão, tentam domesticar.
Poucos se perguntam se aquilo que chamam de defeito não é apenas uma linguagem diferente.
Talvez seus cabelos carregassem alguma coisa que os adultos percebiam sem conseguir formular.
Talvez fossem um lembrete involuntário de que aquela menina possuía uma história anterior à chegada deles.
Uma história que não podia ser apagada com escova, tesoura ou condicionador.
Talvez a juba falasse de liberdade.
Talvez falasse de dor.
Talvez falasse de uma identidade que resistia silenciosamente aos projetos de reformulação alheios.
Porque existem pessoas que confundem acolhimento com remodelagem.
Recebem alguém ferido e imediatamente procuram melhorar a embalagem.
Como se o sofrimento pudesse ser resolvido por meio de um corte moderno.
Como se traumas respondessem a hidratações capilares.
Como se a alma pudesse ser penteada.
É um trabalho mais fácil.
Muito mais fácil.
Escutar exige presença.
Compreender exige humildade.
Acolher exige disposição para entrar em territórios escuros.
Já cortar cabelos produz resultado instantâneo.
O espelho aprova.
Os vizinhos elogiam.
A fotografia melhora.
E a dor continua onde sempre esteve.
Intacta.
Esperando.
Anos se passaram.
Ela cresceu.
Hoje escolhe seus próprios cortes.
Alisa ou não alisa.
Prende ou solta.
Deixa crescer ou reduz.
Mas o que realmente mudou não foi a aparência.
Foi a relação com o espelho.
Quando se olha, já não procura aprovação.
Procura compreensão.
Os cabelos deixaram de ser um problema a ser resolvido.
Viraram testemunhas.
Estiveram presentes em todas as versões dela.
Na criança perdida.
Na adolescente tentando pertencer.
Na jovem tentando agradar.
Na mulher tentando entender.
Cresceram enquanto pessoas partiam.
Enquanto famílias se desfaziam.
Enquanto certezas ruíam.
Enquanto ela reconstruía silenciosamente a própria identidade.
Talvez seja por isso que hoje os trate com uma espécie de respeito que os outros não entendem.
Não por vaidade.
Mas por memória.
Eles lhe mostram quem foi.
Quem já não é.
Quem está se tornando.
E também aquilo que jamais poderá mudar.
Porque existe uma liberdade peculiar em parar de lutar contra certas partes de si.
Quando alguém finalmente compreende que não precisa vencer a própria natureza para ser digna de amor, sobra energia para pensar em outras coisas.
Sobra energia para viver.
Sobra energia para sentir.
Sobra energia para observar o mundo.
Enquanto isso, muita gente continua presa ao mesmo jogo de espelhos.
Polindo superfícies.
Corrigindo aparências.
Retocando fachadas.
Tentando desesperadamente organizar o lado de fora para não precisar encarar o lado de dentro.
É um mercado próspero.
A alma continua desarrumada.
Mas o cabelo está impecável.
E talvez essa seja uma das ironias mais elegantes da condição humana.
As pessoas gastam fortunas tentando modificar aquilo que o espelho mostra.
Enquanto ignoram justamente aquilo que o espelho nunca foi capaz de refletir.
Em síntese: a pergunta que fica é porque a humanidade tem a tendência de corrigir aparências e a resposta que surge é porque isso talvez seja mais simples do que enfrentar feridas, lutos, identidades e contradições. Os cabelos tornam-se um símbolo daquilo que resistiu a todas as tentativas de edição.
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