Maquiagens #00337

As universidades gostam muito de se imaginar como templos da consciência humana.

E talvez esteja aí o primeiro problema.

Porque quando um lugar passa tempo demais acreditando na própria superioridade moral, ele começa a perder a capacidade de enxergar a própria sombra.

A maquiagem moral universitária é sofisticada. Muito mais sofisticada do que a brutalidade explícita de outros ambientes.

Ela não costuma gritar. Cita autores.

Não ameaça diretamente. Abre edital.

Não exclui frontalmente. Cria critérios.

Não censura. “Reformula fluxos.”

Não controla. “Alinha procedimentos.”

Tudo acontece através de linguagem legitimada pelo prestígio intelectual.

E isso torna a violência muito mais difícil de nomear.

Porque universidades descobriram uma coisa perigosíssima: vocabulário progressista pode perfeitamente coexistir com práticas emocionalmente medievais.

Então surgem ambientes que discursam diariamente sobre: diversidade, inclusão, escuta, saúde mental, pluralidade, democracia, direitos humanos, equidade, acolhimento.

Enquanto nos bastidores operam: assédio moral sofisticado, humilhações hierárquicas, silenciamento político, competição adoecida, disputas narcísicas, panelinhas intelectuais, clientelismo emocional, precarização, e jogos silenciosos de destruição simbólica.

A universidade contemporânea frequentemente não expulsa corpos.

Expulsa vitalidade.

Você permanece matriculado. Empregado. Credenciado. Mas vai sendo lentamente drenado: pela burocracia, pela vigilância difusa, pela necessidade constante de validação, pela política miúda, pela teatralidade institucional, e pelo cansaço de precisar parecer funcional num ambiente emocionalmente quebrado.

Existe algo particularmente perverso em instituições que ensinam pensamento crítico enquanto punem informalmente quem pensa criticamente sobre elas.

A crítica é celebrada: em artigos, seminários, teses, grupos de pesquisa, e congressos.

Até o momento em que atravessa a parede e entra na reunião administrativa.

Aí ela vira: “problema relacional.” “falta de cordialidade.” “dificuldade interpessoal.” “postura inadequada.” “excesso de sensibilidade.”

A universidade ama discutir opressão estrutural. Desde que ninguém mencione a estrutura da própria universidade.

Ama estudar autoritarismo. Desde que a chefia não seja contrariada.

Ama debater sofrimento psíquico. Desde que o sofrimento não atrapalhe produtividade.

Ama defender diversidade. Desde que a diversidade venha higienizada, adaptada e fluentemente institucionalizável.

E talvez uma das maiores ironias seja esta: quanto mais certos ambientes acadêmicos falam sobre emancipação humana, mais produzem gente emocionalmente domesticada.

Pessoas treinadas para: performar inteligência, administrar imagem, produzir currículo, acumular capital simbólico, publicar sofrimento teórico, e esconder vulnerabilidade real atrás de léxico sofisticado.

A maquiagem moral universitária funciona exatamente assim: o discurso produz uma sensação coletiva de superioridade ética enquanto a experiência concreta continua atravessada pelas mesmas misérias humanas de qualquer outro ambiente: vaidade, medo, controle, ressentimento, desejo de poder, exclusão, e covardia coletiva diante de injustiças convenientes.

Só que com bibliografia.

E talvez seja isso que torne certas experiências universitárias tão enlouquecedoras.

Não é apenas sofrer violência.

É sofrer violência num ambiente que afirma diariamente existir para produzir consciência, humanidade e pensamento livre.

A contradição contínua corrói por dentro.

Porque quando um frigorífico é frio, ninguém se surpreende. Mas quando um lugar que promete iluminação começa lentamente a apagar pessoas, instala-se um tipo muito específico de desorientação moral.

Ainda assim, talvez exista esperança justamente nos que permanecem desconfortáveis.

Nos que ainda sentem estranhamento. Nos que ainda percebem incoerência. Nos que não conseguem normalizar completamente a distância entre discurso e prática.

Porque instituições adoecem de verdade quando ninguém mais reage ao absurdo.

O silêncio confortável é sempre o estágio terminal da maquiagem moral.

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