Multifocal #00346
Troquei meus óculos.
Não os da ótica.
Os outros.
Os que ficam atrás dos olhos.
Passei boa parte da vida usando um modelo curioso.
A lente voltada para dentro era rosa.
Generosa.
Acolhedora.
Perfumada de compreensão.
Quando eu olhava para mim mesma, encontrava justificativas.
Contextos.
Feridas.
Histórias.
Nuances.
Complexidades.
Eu me analisava como quem segura um pássaro machucado nas mãos.
Com cuidado.
Com paciência.
Com misericórdia.
Já a lente voltada para o mundo era outra história.
Amarela.
Escura.
Lembrava aquelas lentes de proteção usadas em ambientes industriais.
Próprias para locais onde faíscas voam, materiais tóxicos circulam e acidentes acontecem sem aviso.
Eu observava pessoas, instituições e relações como quem entra numa área de risco biológico.
E convenhamos: muitas vezes com razão.
Havia material suficiente para justificar a cautela.
Mas um dia percebi uma armadilha.
Eu estava enxergando a mim mesma com ternura.
E o restante da humanidade com equipamentos de contenção química.
O resultado era previsível.
Eu me tornava cada vez mais compreensiva comigo.
E cada vez menos surpreendida pelo pior dos outros.
É uma forma sofisticada de cansaço.
Porque quem vive esperando encontrar incoerências acaba encontrando.
Elas estão por toda parte.
O problema é que as belezas também estão.
E começam a desaparecer quando a lente errada permanece fixa tempo demais.
Foi então que comecei a desejar outro tipo de visão.
Nem rosa.
Nem fumê.
Nem ingênua.
Nem paranoica.
Uma lente viva.
Capaz de ajustar o foco enquanto a realidade acontece.
Uma espécie de multifocal moral.
Que permita enxergar uma injustiça sem concluir que tudo está perdido.
Que permita enxergar uma virtude sem transformar ninguém em santo.
Que reconheça a beleza sem negar a podridão.
E reconheça a podridão sem esquecer a beleza.
Talvez seja isso que chamam de maturidade.
Não a perda das ilusões.
Mas a capacidade de administrar simultaneamente verdades contraditórias.
Porque as pessoas raramente são uma coisa só.
O generoso também pode ser cruel.
O justo também pode ser covarde.
O agressor pode carregar feridas.
A vítima pode produzir feridas.
O cuidador pode adoecer.
O sábio pode ser ridículo.
O ridículo pode, ocasionalmente, dizer algo sábio.
Tudo respira misturado.
Tudo.
Talvez por isso eu goste tanto da simbologia do escorpião.
Não pela caricatura da vingança.
Mas pela capacidade de distinguir.
De olhar para uma planta e perceber:
o que precisa ser regado,
o que precisa ser podado,
o que precisa ser transplantado,
e o que precisa morrer para que o restante sobreviva.
Existe amor também no ato de retirar o que apodrece.
Existe cuidado também na poda.
Existe compaixão naquilo que impede a contaminação de avançar.
Hoje tento usar esses novos óculos.
Nem sempre consigo.
Às vezes a lente rosa volta.
Às vezes a lente tóxica reaparece.
Mas sigo treinando.
Porque enxergar não é uma condição.
É uma prática.
E talvez a verdadeira sabedoria não esteja em olhar para dentro ou para fora.
Talvez esteja em aprender a alternar os focos sem perder a nitidez.
Como quem finalmente compreende que a realidade não precisa ser idealizada nem condenada.
Precisa apenas ser vista.
E isso, descobri tarde, já é difícil o bastante.
Mas a verdade é que eu havia omitido uma parte importante dessa história.
Quando digo que troquei os óculos, parece que passei diretamente de uma visão defeituosa para outra mais sofisticada.
Não foi assim.
Durante muitos anos eu usava justamente o conjunto oposto de lentes.
A lente escura.
A lente de proteção química.
A lente para ambientes insalubres.
Estava voltada para mim.
Eu me observava como quem inspeciona um vazamento.
Como quem procura rachaduras numa barragem.
Como quem acredita que existe algum defeito estrutural prestes a contaminar tudo ao redor.
Aprendi cedo.
Muito cedo.
Que havia algo profundamente errado no ser humano.
Não apenas nos outros.
Em mim também.
Talvez principalmente em mim.
A linguagem mudava conforme a denominação religiosa, mas a mensagem permanecia parecida.
Miserável.
Pecadora.
Falha.
Insuficiente.
Dependente de redenção.
Dependente de correção.
Dependente de vigilância constante.
Então cresci usando equipamentos espirituais de proteção individual.
Monitorando pensamentos.
Vigiando intenções.
Suspeitando de desejos.
Desconfiando dos impulsos.
Tentando me tornar uma versão aceitável de mim mesma.
Enquanto isso, a lente voltada para os outros era rosa.
Generosa.
Acolhedora.
Compreensiva.
Tudo encontrava explicação.
Tudo encontrava contexto.
Tudo encontrava perdão.
Eu enxergava traumas.
Feridas.
Dificuldades.
Limitações.
Circunstâncias.
Sempre havia uma razão para compreender.
Sempre havia um motivo para relevar.
Sempre havia uma nova oportunidade para oferecer.
E assim fui vivendo.
Protegendo o mundo de mim.
Enquanto deixava o mundo atravessar livremente minhas fronteiras.
Até que um dia a torre caiu.
Ou talvez eu tenha finalmente percebido que ela já vinha rachando há muito tempo.
A velha torre das ilusões.
Aquela construída com promessas de reconhecimento futuro.
Com a fantasia de que amor gera amor.
Que dedicação produz reciprocidade.
Que sacrifício inevitavelmente produz pertencimento.
Que quem cuida será cuidado.
Que quem compreende será compreendido.
A realidade entrou sem pedir licença.
E derrubou alguns andares.
Foi um período desconfortável.
Porque junto com as ilusões caíram também certas idealizações.
Descobri que muitas pessoas não estavam interessadas em reciprocidade.
Estavam interessadas em disponibilidade.
Descobri que algumas relações não queriam encontro.
Queriam serviço.
Descobri que muitos ambientes valorizavam entrega.
Mas não valorizavam quem entregava.
E, pela primeira vez, virei a lente rosa para mim.
Foi estranho.
Quase escandaloso.
Olhar para minha própria história com ternura.
Reconhecer inteligência onde me ensinaram a enxergar orgulho.
Reconhecer potência onde me ensinaram a enxergar vaidade.
Reconhecer dons onde me ensinaram a enxergar obrigação.
Reconhecer limites onde me ensinaram apenas a servir.
Comecei a gostar de partes de mim que antes mantinha sob vigilância.
Minhas perguntas.
Minhas inquietações.
Minha imaginação.
Minha escrita.
Minha sensibilidade.
Minha capacidade de enxergar padrões.
Minhas contradições.
Até minha raiva.
Especialmente minha raiva.
Porque algumas raivas são apenas dores que finalmente aprenderam a falar.
Então a lente de proteção foi para o mundo.
E por um tempo isso pareceu suficiente.
Foi um alívio.
Mas apenas por um tempo.
Porque logo descobri outro risco.
Quando passamos anos demais sendo feridos, começamos a confundir discernimento com defesa permanente.
Tudo vira ameaça.
Tudo vira sinal de alerta.
Tudo vira potencial decepção.
E a lente industrial, usada continuamente, também deforma.
Ela protege.
Mas empobrece as cores.
Foi então que o envelhecimento começou a me ensinar algo.
Não o envelhecimento dos joelhos.
Nem o dos cabelos.
Nem o da pele.
O envelhecimento da percepção.
Aquele momento raro em que você finalmente entende que cada fase da vida lhe entregou uma lente útil.
Mas nenhuma delas servia para tudo.
A lente rosa me ensinou compaixão.
A lente escura me ensinou limites.
A lente crítica me ensinou discernimento.
A lente ferida me ensinou sobrevivência.
Mas nenhuma delas, sozinha, me ensinou sabedoria.
Talvez por isso eu esteja me tornando multifocal.
Consigo olhar para uma pessoa e enxergar simultaneamente sua beleza e sua crueldade.
Consigo perceber virtudes sem apagar incoerências.
Consigo reconhecer feridas sem transformar ninguém em santo.
Consigo admirar sem idealizar.
Consigo me proteger sem me fechar completamente.
Pelo menos tento.
Porque talvez crescer não seja escolher a lente correta.
Talvez seja aprender a trocar de foco antes que qualquer lente transforme uma verdade parcial em verdade absoluta.
Hoje já não quero salvar o mundo.
Nem quero me salvar do mundo.
Quero apenas enxergá-lo com nitidez suficiente para saber quando oferecer flores, quando oferecer distância e quando pegar a tesoura de poda.
Há afetos que precisam de água.
Há ilusões que precisam de luz.
Há relações que precisam de limite.
E há coisas que precisam terminar para que outras possam continuar vivas.
Descobri, tarde mas a tempo, que amor não é apenas acolhimento.
Às vezes amor também é discernimento.
E talvez a sabedoria seja justamente isso:
a arte de mudar de lente sem perder a capacidade de ver.
Comentários
Postar um comentário
🪐 Deixe seu rastro no caos... Ideias, dúvidas ou enigmas existenciais? Aproveite para comentar enquanto ainda estamos todos no mesmo plano.
Ajude outros a transcender também. ✨