Opostos #00351

Passar a vida tentando reconciliar opostos.
Razão e emoção.
Corpo e espírito.
Sonho e realidade.
Liberdade e pertencimento.
Como se em algum lugar existisse uma fórmula secreta capaz de transformar contradições em harmonia.
Eu já acreditei nisso.
Hoje não tenho mais tanta certeza.
Talvez algumas coisas não tenham vindo ao mundo para se reconciliar.
Talvez tenham vindo para permanecer em guerra.
Dentro de nós.
A criança que quer brincar continua existindo, mas também existe a adulta que paga boletos.
Nenhuma convenceu a outra.
A idealista continua acreditando na bondade humana.
A observadora continua acumulando evidências em sentido contrário.
Ambas habitam a mesma casa.
Nenhuma vence.
A pessoa que deseja recolher os feridos da estrada continua viva, mas também vive ao lado dela aquela que, depois de certas experiências, gostaria apenas de atravessar a rua para não ouvir mais uma história triste.
As duas se olham.
As duas se julgam.
As duas têm argumentos excelentes.
E nenhuma consegue eliminar a outra.
Durante muito tempo achei que isso fosse fracasso.
Hoje suspeito que talvez seja condição humana.
Porque a vida parece menos interessada em produzir coerência do que imaginamos.
Ela produz convivência.
O mar não faz acordo com o deserto.
A noite não convence o dia.
O inverno não negocia com o verão.
Eles apenas ocupam tempos diferentes do mesmo mundo.
Talvez aconteça o mesmo dentro de nós.
Existe uma parte que acredita.
Outra que desconfia.
Uma que perdoa.
Outra que registra.
Uma que acolhe.
Outra que se afasta.
Uma que constrói pontes.
Outra que aprende onde não deve atravessar.
Passamos anos tentando escolher qual delas representa nosso verdadeiro eu.
Talvez a pergunta esteja errada.
Talvez todas representem.
Porque a identidade humana não parece uma catedral.
Parece mais uma cidade.
Há bairros luminosos.
Há bairros perigosos.
Há ruas abandonadas.
Há praças onde ainda brincam crianças.
Há regiões interditadas depois de certos acontecimentos.
Tudo coexistindo ao mesmo tempo.
Nem sempre em paz.
Nem sempre em equilíbrio.
Às vezes penso que a maturidade não consiste em resolver os paradoxos.
Consiste em parar de mentir sobre eles.
Admitir que a generosidade existe ao lado do egoísmo.
Que a coragem mora ao lado do medo.
Que a esperança divide parede com o desalento.
E que nenhuma dessas forças parece interessada em desaparecer.
O ser humano talvez não seja uma síntese.
Talvez seja uma disputa.
Não um acordo.
Uma assembleia permanente.
Uma reunião interminável entre versões incompatíveis de si mesmo.
Algumas falam de futuro.
Outras ainda discutem feridas antigas.
Algumas querem mudar o mundo.
Outras querem apenas sobreviver até sexta-feira.
E todas votam.
Todos os dias.
Talvez por isso a vida seja tão cansativa.
E tão interessante.
Porque não somos o lugar onde os opostos finalmente fazem as pazes.
Somos o lugar onde eles continuam conversando.
Mesmo depois de séculos sem chegar a um consenso.

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