Pobreza simbólica #00333

Existem pessoas que não possuem patrimônio emocional próprio.

Mas possuem uma abundante pobreza simbólica.

Então sobrevivem através de uma espécie de status herdado por osmose social.

O mecanismo é triste porque revela vazio. Mas também é corrosivo.

Porque pessoas assim frequentemente começam a consumir a vida do outro como matéria-prima da própria identidade.

Você percebe isso quando elas começam a falar da vida alheia com um entusiasmo quase possessivo.

— Minha amiga viajou para não-sei-onde. 

— Minha amiga bebe vinho tal. 

— Minha amiga ganhou um presente caríssimo. 

— Minha amiga conhece gente importante.

— Minha amiga isso. 

— Minha amiga aquilo.

E quanto mais falam, mais desaparecem dentro da própria narrativa, porque não estão exatamente compartilhando uma amizade.

Estão tentando existir através da proximidade simbólica com alguém que consideram mais interessante do que elas mesmas.

É uma espécie de puxadinho identitário.

A pessoa não constrói uma vida. Constrói acesso.

Ela se alimenta socialmente de reflexo. Como lua convencida de que produz luz própria.

O mais curioso é que frequentemente essas pessoas nem invejam dinheiro de verdade.

Invejam presença. Invejam singularidade. Invejam o fato de alguém ocupar espaço no mundo sem precisar se agarrar em ninguém para parecer existir.

E isso produz um fenômeno estranho: a pessoa te admira enquanto simultaneamente deseja te reduzir.

Porque admiração sem elaboração vira ressentimento.

Então ela precisa: te exibir, te citar, te estudar, te consumir simbolicamente, mas também transformar você em algo controlável.

Ela te elogia excessivamente em público, mas lentamente começa a consumir sua imagem até deformá-la.

Transforma sua vida em assunto. Sua intimidade em entretenimento. Sua existência em extensão emocional dela.

Você vira um acessório narrativo.

Até que um dia percebe: ela está falando de você como quem fala de uma bolsa cara.

Foi exatamente aí que interrompi.

— Pare de falar de mim.

Simples. Seco. Educado.

Mas suficiente para desmontar uma dinâmica inteira.

Porque pessoas assim não suportam perceber que o objeto da admiração possui fronteiras.

Elas acreditam que proximidade emocional dá direito de circulação irrestrita sobre a imagem do outro.

Não dá.

Quando você impõe limite, quebra o encanto narcísico.

Você deixa de ser extensão da fantasia dela e volta a ser sujeito.

Aí vem o estranhamento. O incômodo. Às vezes a hostilidade passiva.

Porque existe uma ironia quase poética nisso tudo: quanto mais certas pessoas tentam se aproximar daquilo que invejam sem elaborar a própria insuficiência, mais acabam destruindo justamente o encanto que sentiam.

Porque inveja mal digerida não contempla.

Corrói.

Primeiro ela admira sua luz. Depois procura rachaduras. Depois sente alívio quando sua vida desorganiza. Depois oferece “apoio”. Depois comenta sua queda com íntima satisfação moral.

Como quem finalmente reequilibra uma hierarquia invisível dentro da própria cabeça.

Desde então, desenvolvi uma política íntima de preservação: não permito que certas pessoas me transformem em personagem do imaginário delas.

Porque algumas amizades não querem sua felicidade.

Querem apenas frequentar simbolicamente a atmosfera dela.

E isso não é afeto.

É turismo emocional em território alheio.

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