Por que estar só é tão incômodo? #00354

Passei a refletir se a solidão poderia ser apenas uma questão numérica.
Uma conta simples.
Uma soma de presenças.
Se existissem pessoas ao redor, a solidão não deveria ter espaço.
Se o espaço estive vazio, a solidão poderia aparecer.
Parecia lógico. 
Em minhas observações, percebia bem o desespero em torno de não se estar só. 
A necessidade de se preencher qualquer tempo, qualquer espaço, qualquer possibilidade de se estar só.
Mas observando tudo isso, entendi como quase todas as ideias que desmoronam ao primeiro contato mais profundo com a realidade.
Mas como a vida não para para nossas observações, continuei vivendo vida normalizada, normatizada. Horários. Almoços. Reuniões.
Após os horários de trabalhos e fins de semanas, as festas.
Os corredores cheios.
As mesas rodeadas.
As conversas intermináveis.
As mensagens chegando.
Os grupos.
Os convites.
As notificações.
Igrejas, grupos, coletivos, shoppings, avenidas, parques, estádios, shows lotados...

E junto com tudo isso percebi uma sensação estranha.

Como quem está cercado por vozes, mas não encontra linguagem.
Como quem está cercado por corpos, mas não encontra presença.
Como quem ocupa espaço em todos os lugares sem conseguir habitar lugar algum.

Foi então que comecei a desconfiar que a solidão talvez não tivesse relação direta com a quantidade de pessoas.
Talvez tivesse relação com outra coisa.
Talvez a verdadeira solidão não seja ausência de companhia.
Talvez seja ausência de testemunhas.
Não testemunhas dos grandes acontecimentos.
Não testemunhas das fotografias.
Não testemunhas das versões editadas que mostramos ao mundo.
Testemunhas de nós.
Daquilo que somos quando as legendas acabam.
Porque existe uma diferença imensa entre ser visto e ser enxergado.
Ser visto é fácil.
Uma câmera vê.
Uma catraca vê.
Um porteiro vê.
Um algoritmo vê.
Um chefe vê.
Uma multidão vê.
Mas enxergar exige outro tipo de investimento.
Exige atenção.
Exige interesse.
Exige curiosidade.
Exige disponibilidade para abandonar as próprias narrativas durante alguns instantes e permitir que a realidade do outro exista.
Pouca gente faz isso.
A maioria não está olhando para você.
Está olhando para as próprias projeções.
Olha para você e vê um cargo.
Uma função.
Uma utilidade.
Uma ameaça.
Uma oportunidade.
Uma categoria.
Uma ideologia.
Uma cor.
Um gênero.
Uma aparência.
Uma vantagem.
Uma desvantagem.
Uma conveniência.
Pouca gente suporta o trabalho de enxergar uma pessoa.
Porque pessoas são complexas.
São contraditórias.
São difíceis de catalogar.
E o mundo contemporâneo adora etiquetas.
Etiquetas economizam energia.
Seres humanos exigem envolvimento.
Talvez por isso seja tão comum sentir-se sozinho em meio à multidão.
Porque a multidão oferece contato.
Mas raramente oferece encontro.
Contato é proximidade física.
Encontro é reconhecimento.
Contato acontece por acaso.
Encontro exige presença.
Contato pode durar horas.
Encontro pode durar segundos.
Há conversas de uma vida inteira que nunca chegam a acontecer.
E há diálogos de cinco minutos que permanecem conosco por décadas.
Porque alguém finalmente viu.
Alguém finalmente ouviu.
Alguém finalmente compreendeu.
Não completamente.
Nunca completamente.
Mas o suficiente para que uma parte nossa deixasse de vagar invisível pelo mundo.
Existe também outra forma de solidão.
Mais silenciosa.
Mais sofisticada.
Mais difícil de identificar.
É aquela que surge quando a pessoa passa tanto tempo cuidando dos outros que deixa de perceber que ninguém está cuidando dela.
Ela escuta.
Acolhe.
Ajuda.
Orienta.
Compreende.
Media conflitos.
Suporta crises.
Oferece colo.
Oferece tempo.
Oferece energia.
Oferece humanidade.
E aos poucos começa a ocupar um papel muito específico na vida das pessoas.
O papel de porto.
O problema dos portos é que todos chegam.
Poucos permanecem.
E quase ninguém pergunta como está o cais depois da tempestade.
Há uma espécie de elogio perverso reservado para essas pessoas.
Dizem que são fortes.
Que são maduras.
Que são equilibradas.
Que são generosas.
Que são resilientes.
Palavras bonitas.
Palavras perigosas.
Porque muitas vezes significam apenas:
"Nós nos acostumamos a receber de você sem perceber o custo."
A pessoa se torna indispensável para todos.
E invisível para quase todos.
Até que um dia descobre uma verdade desconfortável.
A de que estar cercada não é o mesmo que estar acompanhada.
A de que ser necessária não é o mesmo que ser amada.
A de que ser admirada não é o mesmo que ser conhecida.
E a de que ser útil não é o mesmo que ser acolhida.
Talvez seja por isso que algumas das experiências mais profundas da vida aconteçam na ausência de gente.
Uma caminhada solitária.
Uma leitura.
Uma música.
Uma janela.
Uma árvore.
Uma xícara de café.
Uma taça cheia de água.
Um silêncio.
Porque, nessas horas, desaparece a obrigação de desempenhar personagens.
Ninguém exige produtividade emocional.
Ninguém pede versões simplificadas.
Ninguém exige explicações.
Pela primeira vez, a pessoa pode simplesmente existir.
E existe algo profundamente restaurador em existir sem precisar justificar a própria existência.
Talvez por isso algumas pessoas encontrem mais companhia em livros do que em festas.
Mais diálogo em uma página do que em um auditório.
Mais humanidade em um poema do que em uma reunião.
Não porque rejeitem pessoas.
Mas porque reconhecem presença onde ela realmente acontece.
Um grande escritor pode nos compreender através de séculos.
Um desconhecido pode nos compreender em cinco minutos.
Enquanto isso, pessoas muito próximas podem passar décadas sem jamais nos enxergar.
E então surge a pergunta inevitável.
O que realmente está escasso?
Seriam pessoas?
Talvez não.
Nunca houve tantas.
Seriam contatos?
Também não.
Nunca foram tão abundantes.
Talvez o que esteja escasso seja algo muito mais raro.
A capacidade de oferecer atenção genuína.
A capacidade de sustentar complexidade.
A capacidade de enxergar sem reduzir.
A capacidade de permanecer diante de alguém sem imediatamente transformá-lo em ferramenta, categoria, espelho ou entretenimento.
Talvez a grande pobreza contemporânea não seja material.
Talvez seja relacional.
Talvez seja simbólica.
Talvez seja espiritual.
Talvez estejamos vivendo uma época em que as pessoas morrem menos de fome de pão e mais de fome de reconhecimento.
Fome de escuta.
Fome de significado.
Fome de pertencimento.
Fome de testemunhas.
E talvez seja por isso que algumas das almas mais solitárias não estejam isoladas em montanhas.
Talvez estejam justamente no centro das cidades.
No meio das empresas.
Nas universidades.
Nas famílias.
Nas igrejas.
Nas festas.
Nas mesas cheias.
Sentadas entre pessoas que sabem seus nomes, seus cargos, seus telefones, seus aniversários, seus currículos e suas fotografias.
Mas que nunca perguntaram quem elas são quando ninguém está olhando.
No fim, a solidão não parece ser a ausência de gente.
A solidão parece surgir quando não existe lugar seguro para que nossa existência inteira aconteça.
E o pertencimento talvez seja exatamente o contrário.
Não quando alguém concorda conosco.
Não quando alguém nos elogia.
Não quando alguém nos admira.
Mas quando alguém nos permite existir sem precisar diminuir, corrigir, editar ou traduzir quem somos.
Talvez seja por isso que alguns encontros mudam vidas.
Porque por alguns minutos, ou por alguns anos, deixam de nos tratar como função.
Como aparência.
Como personagem.
Como recurso.
Como ideia.
E nos devolvem aquilo que passamos tanto tempo procurando.
A experiência simples, rara e quase revolucionária de sermos vistos como gente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ao início de tudo, um olá! #001

Cá entre nós... #002

Em busca de nós mesmos #004