Soluções plásticas #00350
Existe uma categoria de pessoa que resolveu o conflito entre céu e terra.
E isso deveria me tranquilizar.
Mas me preocupa profundamente.
Porque ela não construiu uma ponte entre os dois mundos.
Ela abriu uma franquia.
Tudo serve para tudo.
A meditação serve para aumentar produtividade.
A amizade serve para networking.
A arte serve para construir marca pessoal.
A solidariedade serve para melhorar reputação.
A espiritualidade serve para vender cursos.
O sofrimento serve para gerar engajamento.
A vulnerabilidade serve para produzir autoridade.
Nada escapa da lógica da utilidade.
Até a alma precisa apresentar indicadores de desempenho.
É uma evolução curiosa da espécie humana.
Antigamente existiam hipócritas.
Hoje existem pessoas muito mais sofisticadas.
Elas acreditam sinceramente nas próprias contradições.
Não fingem.
Monetizam.
Não mentem.
Reposicionam.
Não manipulam.
Curam.
Não exploram.
Criam oportunidades.
O vocabulário mudou.
A estrutura continua surpreendentemente familiar.
Talvez por isso eu desconfie um pouco de quem consegue harmonizar tudo perfeitamente.
Da pessoa que transforma cada experiência em aprendizado.
Cada fracasso em oportunidade.
Cada dor em crescimento.
Cada perda em reposicionamento estratégico.
Há algo de profundamente humano em permanecer um pouco perdido diante de certas coisas.
Nem todo sofrimento precisa ser produtivo.
Nem toda lágrima precisa gerar conteúdo.
Nem toda experiência precisa virar palestra.
Nem toda cicatriz precisa se transformar em diferencial competitivo.
Algumas dores vieram apenas para doer.
Alguns lutos vieram apenas para ser vividos.
Algumas perguntas não produzem respostas.
Produzem silêncio.
E talvez seja justamente esse silêncio que estamos perdendo.
A obsessão contemporânea por integração criou uma estranha tirania.
Tudo precisa fazer sentido.
Tudo precisa servir para alguma coisa.
Tudo precisa ser convertido em valor.
Até o inútil precisa justificar sua existência.
Uma criança desenha.
Alguém pergunta se ela pretende seguir carreira.
Uma pessoa lê poesia.
Alguém pergunta qual a aplicação prática.
Alguém contempla o mar.
Logo aparece um especialista explicando como transformar contemplação em alta performance.
O mundo parece incapaz de deixar qualquer coisa simplesmente existir.
Talvez a verdadeira rebeldia do futuro não seja produzir mais.
Nem performar mais consciência.
Nem desenvolver mais competências.
Talvez seja recuperar a capacidade de viver certas experiências sem transformá-las imediatamente em ferramenta.
Tomar água porque se tem sede.
Não porque melhora indicadores de saúde.
Caminhar porque o corpo deseja movimento.
Não porque o relógio exige metas.
Conversar porque existe afeto.
Não porque existe interesse.
Escrever porque algo precisa ser dito.
Não porque algo precisa ser vendido.
Talvez o paradoxo seja esse.
Passamos séculos tentando unir céu e terra.
E agora corremos o risco de transformar ambos em departamento comercial.
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