Ecos...#00345


Cansei de me sentir responsável pelo sofrimento dos outros enquanto ninguém parecia se responsabilizar pelo meu.

Quando a colega entrou em tratamento por causa do câncer, eu chorei.

Mas ela ainda encontrou tempo e jeito de ser grosseira comigo:

— Fique tranquila que eu não vou me afastar, não.

Quando o chefe foi insensível com a situação dela, eu chorei também.

Pedi que ele a liberasse do trabalho pesado. Ela não podia estar no meio da multidão, atendendo pessoas aleatórias em meio aos enjoos, tonturas e efeitos violentos da medicação oncológica.

Ele respondeu:

— Ela não quer ficar em casa, ué?

Ué.

Ué?

A pessoa estuda anos da própria vida, vira doutor, livre-docente, titulado, viajado, enculturado, o diabo a quatro, e essa é a única exclamação que encontra quando o sofrimento é do outro?

Enquanto isso, eu saía andando e chorando pelos corredores, tentando juntar alguma sanidade para fazer uma oração e pedir a Deus que as coisas melhorassem. Que as pessoas encontrassem algum resquício de humanidade dentro daquele lugar.

Chorei no banheiro após ouvir relatos de violência de gênero.

Quando ouvia sobre violações de direitos nas cotas raciais, chorei também.

Chorei por não saber o que fazer e porque aqueles que sabiam o que fazer não estavam fazendo.

Chorei quando funcionários faleceram.

Quando vi injustiças e assédios acontecendo.

Quando estudantes e educadoras apanharam por protestarem por creche e melhorias no ensino.

Se banheiros e árvores pudessem falar, talvez produzissem relatórios muito mais honestos do que boa parte das atas institucionais.

Entre um choro e outro, eu ainda precisava responder e-mails, atender telefonemas, resolver demandas de balcão e continuar funcionando como se nada daquilo estivesse atravessando meu corpo.

Porque existe uma expectativa silenciosa em determinados ambientes: a de que algumas pessoas sejam responsáveis pelo sofrimento de todos.

Que acolham.

Que escutem.

Que compreendam.

Que apaziguem.

Que absorvam impactos.

Que sustentem emocionalmente aquilo que a estrutura não consegue sustentar.

Mas raramente alguém pergunta quem sustenta essas pessoas.

Raramente alguém pergunta quem escuta quem passou a vida escutando.

Quando uma colega quebrou o pé, fui eu quem cobriu a licença dela.

Desdobrei-me fazendo o trabalho dela e o meu enquanto ainda ouvia insinuações de alheios de que eu não queria trabalhar.

Mesmo em situações legítimas de afastamento, a redistribuição do trabalho quase sempre parecia ocorrer para baixo.

A pessoa ganha três vezes mais do que eu, mas espera que eu faça o serviço dela quieta, obediente, agradecida, sem reclamar e sem ganhar um centavo a mais por isso.

E quando chega a hora da avaliação de carreira, ainda sou eu quem precisa convencer o chefe de que mereço crescer.

Como se sobreviver já não tivesse sido trabalho suficiente.

Mas quando reclamei do excesso de trabalho, fui mal interpretada e ganhei esvaziamentos.

Em um termostato que só conhece dois extremos, 8 ou 80, qual opção sobra?

Quente demais ou frio demais.

Ambas adoecem.

Vi parte da minha face deixar de me obedecer.

A abertura do olho.

O canto da boca.

Os movimentos mais simples.

Tudo atravessado por uma paralisia facial depois de tantos assédios, violências e pressões acumuladas naquele ambiente.

Meu próprio corpo começou a denunciar aquilo que minha boca tentava suportar calada.

Mas o absurdo nunca parece suficiente.

Porque o mundo do trabalho exige uma coisa muito específica:

que você continue funcionando mesmo enquanto está adoecendo.

Se você chora, dizem que é sensível demais.

Se endurece, dizem que perdeu a leveza.

Se reage, é desequilibrada.

Não é cordial.

Se suporta tudo em silêncio, vira conveniente.

Durante anos pensei que minha maior fragilidade fosse sentir demais.

Hoje já não tenho tanta certeza.

Talvez o problema nunca tenha sido a sensibilidade.

Talvez o problema tenha sido oferecer sensibilidade para estruturas incapazes de retribuí-la.

Porque uma pessoa sensível encontra alimento quando encontra humanidade.

Mas encontra exaustão quando é colocada para irrigar desertos.

O serviço de saúde mental se chama Ecos.

O acrônimo veio com boa intenção, mas a palavra que formou fala mais forte.

E talvez não exista nome mais preciso.

Ali você fala, mas escuta apenas a devolução cansada da própria voz.

Encaminham você para o serviço de acolhimento do trabalho, ou até a um psiquiatra.

Medicamentos.

Ajustes.

Protocolos.

Nem sempre para transformar a estrutura que adoece, mas frequentemente para que você consiga suportar anestesiada as violências cotidianas sem interromper a produtividade da máquina.

Porque algumas instituições adoram pessoas empáticas.

Desde que sua empatia continue servindo ao funcionamento da engrenagem.

O problema começa quando a engrenagem descobre que a pessoa empática também sangra.

Aí surge uma pergunta inconveniente:

Quem vai cuidar dela?

E perguntas inconvenientes raramente recebem orçamento, comissão ou grupo de trabalho.

Você acredita em vida após a aposentadoria?

Porque às vezes parece que o objetivo é apenas sobreviver até ela com algum resto de sanidade, alguns dentes, uma coluna minimamente funcional e a capacidade residual de reconhecer o próprio rosto no espelho.

E então chega um ponto em que seu chefe aparece dizendo que também está doente, e um pensamento horrível atravessa sua cabeça:

"Que morra.

Ou pelo menos se afaste por uma boa quantidade de tempo, até que eu consiga entender que você é algoz, e também vítima."

E isso talvez seja o mais assustador.

Perceber que certos ambientes conseguem deformar até aquilo que existe de melhor em nós.

É nesses momentos que a ficção começa a parecer menos ficção.

Ou quando filmes como Nine to Five, Django Livre e Um Dia de Fúria passam a ser inspiradores quando você os assiste e consegue enxergar os rostos de pessoas conhecidas nas faces dos personagens.

E quando as situações acontecem na tela, você passa a rir como o Coringa, de Joaquin Phoenix.

Você senta e pensa que, se isso acontecesse, não seria porque você é uma pessoa cruel.

Mas porque existem ambientes que realmente deformam afetos.

Lugares onde a exaustão vira ressentimento.

Onde a empatia, usada até o limite, começa a apodrecer por dentro.

Onde a pessoa já não sabe mais se está tentando sobreviver ou apenas se defendendo emocionalmente de mais uma ferida.

De mais uma luta.

De mais uma incoerência.

Que lugar adoecedor é esse onde preciso usar a escrita, não como terapia, mas como forma diária de vingança simbólica?

Onde os venenos chegam invisíveis pelo ar-condicionado, pelos corredores, pelas reuniões, pelas mensagens, pelas pequenas humilhações contínuas que ninguém registra oficialmente, mas que o corpo inteiro memoriza?

Talvez o mais assustador não seja o sofrimento.

Talvez seja perceber o quanto esperam que ele permaneça silencioso.

Silencioso até a aposentadoria.

Silencioso até a exoneração.

Silencioso até o afastamento.

Silencioso até a morte funcional daquilo que um dia foi entusiasmo.

Durante anos chorei pelos outros.

Pelos doentes.

Pelos injustiçados.

Pelos esquecidos.

Pelos humilhados.

Pelos que perderam direitos.

Pelos que perderam filhos.

Pelos que perderam saúde.

Pelos que perderam voz.

Até descobrir uma verdade desconfortável:

ninguém sobrevive indefinidamente carregando sozinho a dor coletiva.

Porque empatia sem reciprocidade não vira comunidade.

Vira extração.

E talvez meu verdadeiro cansaço não seja do sofrimento.

Talvez seja da assimetria.

Da estranha normalidade com que algumas estruturas aceitam receber humanidade sem jamais devolvê-la.

Da expectativa permanente de que eu compreenda todos.

Enquanto quase ninguém se dispõe a compreender quem passou a vida inteira tentando compreender os outros.

E talvez esteja aí a pergunta que continua ecoando pelos corredores, pelos banheiros, pelas árvores e pelos arquivos invisíveis da memória:

quem cuida de quem cuida?

Porque um "cordialmente" no final de um e-mail nunca respondeu essa pergunta.

E um protocolo raramente abraça alguém quando as luzes do prédio se apagam.

E talvez seja justamente aí que a escrita deixa de ser desabafo e se torna escolha.

Talvez seja por isso que eu precise buscar inspiração não nos personagens que enlouquecem e explodem o mundo, mas naqueles que se sentam para escrevê-lo.

Porque, convenhamos, a realidade já produz explosões suficientes por conta própria.

Em tempos em que os absurdos se acumulam e as instituições fabricam personagens mais caricatos do que a própria ficção, a escrita deixa de ser passatempo. 

Deixa de ser hobby, terapia ou ornamento intelectual.

Vira testemunho.

Vira denúncia.

Vira memória.

Vira evidência.

Histórias como The Help me lembram que existe uma forma mais sofisticada de vingança do que o ódio e mais duradoura do que o escândalo: revelar aquilo que todos fingem não ver.

Porque certas estruturas não caem quando são atacadas.

Caem quando são descritas.

Caem quando alguém ilumina seus mecanismos com precisão suficiente para que o constrangimento faça o trabalho que a coragem coletiva se recusou a fazer.

Há sistemas inteiros sustentados não pela força, mas pelo acordo silencioso de que ninguém apontará o ridículo.

E o ridículo, quando finalmente nomeado, perde parte do seu poder.

Talvez por isso eu continue escrevendo.

Não porque a literatura salvará o mundo, muito embora eu acredite no poder que as artes têm para fazer isso. Nise da Silveira que o diga.

Mas porque já vi pessoas demais sendo esmagadas por engrenagens que dependiam justamente do silêncio para continuar funcionando.

E porque, no fundo, algumas das melhores revoluções começam quando alguém resolve registrar os fatos com tanta honestidade que a realidade, pela primeira vez, se vê obrigada a encarar o próprio reflexo.

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