22 lentes (ou 21?) #00363

Há muitas explicações para a palavra tarô.

Uns dizem que ela vem do antigo jogo italiano tarocchi. Outros encontram parentesco com a palavra rota, a roda em latim. Há quem a aproxime da Torá, a Lei na tradição judaica.

Talvez todas tenham alguma razão. Ou talvez nenhuma explique o que realmente importa, pois as palavras costumam viajar mais do que suas próprias origens.

Quem mora em São Paulo, por exemplo, dificilmente escuta a palavra ROTA e pensa numa roda, num caminho ou numa jornada da consciência.

Pensa imediatamente na tropa de elite da Polícia Militar.

A ROTA aparece quando alguém acredita que pode agir sem consequências.

Ela chega para lembrar que certas leis continuam existindo, mesmo quando alguém decide ignorá-las.

A vida parece funcionar de maneira semelhante. 

Existe uma rota que não patrulha ruas.

Patrulha escolhas.

Não usa farda.

Não carrega armas.

Não precisa de viaturas nem de sirenes.

Ela simplesmente está ali.

Silenciosa.

Paciente.

Invisível.

Podemos fingir que ela não existe.

Podemos até convencer outras pessoas disso.

Mas não convencemos a realidade.

Ninguém desafia a gravidade dizendo que não acredita nela.

Ela continua funcionando.

Talvez existam leis da consciência que operem exatamente da mesma forma.

Quando mentimos, algo se desloca dentro de nós.

Quando traímos aquilo que sabemos ser verdadeiro, a consciência registra.

Quando cultivamos ressentimento durante anos, o primeiro território ocupado por ele é o nosso próprio corpo.

Quando reduzimos outra pessoa a um objeto, também reduzimos alguma coisa em nós.

Essas consequências não dependem de religião.

Nem de polícia.

Nem de tribunais.

Dependem apenas da natureza das coisas.

Durante séculos chamamos isso de pecado.

Talvez hoje a palavra carregue peso demais para ser ouvida.

Eu prefiro outra.

Desalinhamento.

Porque, no fundo, quase todo ser humano sabe quando está desalinhado de si mesmo.

Não porque alguém o condenou.

Mas porque existe um tipo de silêncio que nenhuma justificativa consegue calar.

Foi Carl Jung quem escreveu que, enquanto o inconsciente permanecer inconsciente, ele dirigirá nossa vida e nós o chamaremos de destino.

Talvez essa seja uma das frases mais importantes já escritas sobre a condição humana.

Porque ela nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável.

E se aquilo que chamamos de destino for apenas uma lente que nunca percebemos estar usando?

Séculos antes de Jung, Jesus havia dito:

"Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luz."

Durante muito tempo essa frase foi interpretada como um chamado à bondade.

Hoje eu a leio de outra maneira.

Talvez Jesus estivesse falando da qualidade do olhar.

Jung voltou sua atenção para o inconsciente.

Jesus voltou sua atenção para os olhos.

O Tarô, talvez, apenas nos ofereça novas lentes.

Os três parecem apontar para a mesma direção.

Antes de tentar transformar o mundo, convém investigar com que olhos estamos olhando para ele.

Porque ninguém enxerga a realidade diretamente.

Todos nós a atravessamos por algum tipo de lente.

A família nos entrega algumas.

A escola oferece outras.

A religião.

A cultura.

Os traumas.

Os afetos.

Os medos.

As perdas.

As ideologias.

Os desejos.

As conquistas.

Tudo isso fabrica lentes.

O problema não é usá-las.

O problema é esquecer que elas existem.

Quando isso acontece, deixamos de perceber que estamos interpretando a realidade e passamos a acreditar que somos proprietários dela.

Chamamos de verdade aquilo que apenas conseguimos enxergar.

Chamamos de personalidade aquilo que apenas aprendemos a repetir.

Chamamos de destino aquilo que nunca chegamos a compreender em nós mesmos.

É aqui que gostaria de lhe emprestar uma lente.

Não uma verdade.

Muito menos um dogma.

Apenas uma lente.

Daquelas vendidas em farmácia.

Simples.

Provisórias.

Feitas para um momento específico.

Quem já tentou passar uma linha pelo fundo de uma agulha sabe do que estou falando.

Elas não substituem os óculos feitos sob medida.

Mas, quando a vista falha, revelam aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos.

É assim que proponho olhar para o Tarô.

Não como um instrumento para prever acontecimentos.

Nem como um catálogo de superstições.

Mas como uma caixa de lentes.

Cada arcano oferece uma maneira diferente de perceber a realidade.

O Louco amplia as possibilidades.

O Mago revela recursos que já possuímos.

A Sacerdotisa ensina a escutar antes de agir.

A Imperatriz mostra aquilo que pode florescer.

O Imperador revela a estrutura necessária para sustentar esse florescimento.

O Hierofante pergunta quais tradições merecem ser preservadas e quais apenas repetimos sem perceber.

Os Enamorados lembram que toda escolha também é uma renúncia.

O Carro ensina direção.

A Justiça evidencia consequências.

O Eremita ilumina o caminho para dentro.

A Roda da Fortuna recorda que mudança não é acidente, mas parte da própria vida.

A Força revela que firmeza e delicadeza podem caminhar juntas.

O Enforcado muda nossa posição para mudar nossa percepção.

A Morte mostra que terminar também é uma forma de continuar.

A Temperança integra aquilo que parecia inconciliável.

O Diabo revela as correntes que aprendemos a chamar de liberdade.

A Torre desmonta ilusões antes que elas nos enterrem.

A Estrela devolve esperança.

A Lua ensina a caminhar quando ainda não é possível enxergar tudo.

O Sol ilumina aquilo que deixou de precisar de interpretações.

O Julgamento desperta aquilo que permanecia adormecido.

E o Mundo lembra que toda chegada inaugura uma nova jornada.

O Tarô talvez não exista para diminuir a ansiedade sobre o futuro, mas para ampliar nossa consciência sobre o tempo presente.

Todas as cartas ajudam a ampliar a percepção desse presente, da dádiva que é habitar o agora, e nos convidam a centrar nele toda a nossa atenção. Afinal, talvez o futuro nunca seja um lugar para onde caminhamos, mas apenas a consequência da forma como aprendemos a enxergar este instante e do que fazemos com aquilo que nele reconhecemos.

Dentro dessa linguagem simbólica, os arcanos maiores podem ser compreendidos como grandes movimentos da consciência. Não descrevem o cotidiano, mas as travessias internas que reorganizam o modo de ver a vida. São como lentes estruturais, que alteram o eixo do olhar.

Os arcanos menores, por outro lado, parecem habitar a textura do dia a dia. Falam menos de viradas existenciais e mais da forma como essas viradas se manifestam no concreto: nas escolhas pequenas, nas relações, nos gestos repetidos, nas tensões sutis da matéria.

Quando o Tarô é lido pela perspectiva cabalística, essa distinção ganha outra profundidade. Os arcanos maiores podem ser percebidos como orientadores dos grandes degraus da consciência ao longo da Árvore da Vida, enquanto os menores dialogam com a experiência encarnada, onde aquilo que é compreendido em níveis mais altos precisa ser vivido em linguagem simples, cotidiana e repetível.

Não se trata de hierarquia entre superior e inferior.

Mas de níveis diferentes de densidade da experiência.

O que muda não é o valor.

É a escala.

E talvez seja justamente aí que o Tarô se torne menos um sistema de previsão e mais uma cartografia do olhar.

Um mapa que não descreve o futuro, mas a maneira como a consciência atravessa o presente em diferentes profundidades

Se Jung tinha razão, o inconsciente fabrica lentes e, enquanto não as percebemos, chamamos seus efeitos de destino.

Se Jesus tinha razão, a qualidade dessas lentes determina a quantidade de luz que conseguimos experimentar.

E, se o Tarô tiver algo a nos ensinar, talvez seja justamente isto: nenhuma lente, sozinha, é capaz de revelar toda a paisagem.

A maturidade não consiste em encontrar a lente perfeita.

Consiste em saber quando é hora de trocá-la.

Se esta pequena lente conseguir ajudá-lo a perceber uma única coisa que antes lhe escapava, ela já terá cumprido exatamente o mesmo papel daqueles discretos óculos de farmácia.

Não foram feitos para serem usados o tempo todo.

Mas, quando chega a hora de passar a linha pela agulha, fazem toda a diferença.

Nos próximos posts, vamos tentar ver o mundo pelas lentes do tarô?


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