A Força e os instintos #00376

Entendemos então que quem vai e volta não é a vida? É a consciência. A vida apenas gira.
A consciência é que pode permanecer presa ao mesmo raio da roda durante anos, ou aprender a enxergar a roda inteira.
E talvez seja justamente por isso que a Roda vem depois do Eremita.
Primeiro você aprende a observar. Depois descobre que aquilo que observa possui padrões.
Sem o Eremita, a Roda parece caos.
Com o Eremita, ela começa a revelar inteligência.
Acho que essa é uma das leituras mais fortes que nossa reflexão aqui pode oferecer.

E então chegamos a um dos arcanos que mais sofreram simplificações ao longo do tempo.
Quase sempre dizem que a Força é coragem, domínio ou poder.
Mas, depois da Roda da Fortuna, isso fica pequeno demais.
A consciência já viu que não controla os ciclos da vida. Então que força é essa?
Não pode ser a força de quem domina o mundo.
Tem de ser a força de quem aprende a governar a si mesmo.
E aqui há uma conexão linda com a imagem clássica da carta: uma pessoa abrindo, ou acariciando, a boca de um leão.
Ela não vence o leão.
Ela não o mata.
Ela também não foge dele.
Ela aprende a relacionar-se com ele como quem fala com animais selvagens. Não porque os ame incondicionalmente, mas porque compreende sua natureza.

A Força não vence o leão.

Ela aprende a caminhar ao lado dele.

Depois que a consciência compreende que a vida se move em ciclos, ela faz uma descoberta ainda mais desconcertante.

O maior desafio nunca esteve do lado de fora.

Sempre esteve dentro.

No primeiro nível do jogo, a Força parece poder.

Coragem.

Determinação.

A capacidade de enfrentar dificuldades.

Mas isso é apenas sua superfície.

Logo a consciência percebe que existe um leão que não pode ser derrotado.

Porque ele mora nela.

É feito de impulsos.

Medos.

Desejos.

Raiva.

Vaidade.

Orgulho.

Ciúme.

Ambição.

Sobrevivência.

Tudo aquilo que sustenta a vida e, ao mesmo tempo, pode destruí-la quando assume o comando.

Durante muito tempo acreditamos que amadurecer era eliminar esse animal.

Domesticá-lo.

Silenciá-lo.

Acorrentá-lo.

Mas o leão nunca desaparece.

Quando é reprimido, aprende apenas a atacar escondido.

A verdadeira Força nasce quando a consciência deixa de lutar contra sua natureza e começa a compreendê-la.

Ela percebe que a agressividade também protege.

Que o medo também alerta.

Que a raiva também denuncia limites violados.

Que o desejo também movimenta a vida.

Nenhuma dessas forças é inimiga.

O perigo começa quando qualquer uma delas assume o lugar do condutor.

Então a consciência deixa de perguntar:

"Como elimino minhas sombras?"

E começa a perguntar:

"Como posso escutá-las sem entregar-lhes as rédeas?"

Essa pergunta transforma tudo.

No nível mais alto desse arcano, a Força já não demonstra poder.

Transmite serenidade.

Ela não precisa levantar a voz.

Nem vencer todas as discussões.

Nem controlar todas as situações.

Sua autoridade nasce da integração.

O leão continua ali.

Forte.

Vivo.

Instintivo.

Mas já não governa sozinho.

Também não foi aprisionado.

Foi compreendido.

Talvez essa seja a maior lição da Força.

A consciência amadurece quando percebe que aquilo que tentava destruir dentro de si talvez estivesse apenas esperando ser educado.

Porque nenhuma energia desaparece.

Ela apenas muda de direção.

E toda vez que conseguimos orientar um impulso, em vez de reprimi-lo, deixamos de desperdiçar força lutando contra nós mesmos.

Passamos, enfim, a utilizá-la para caminhar.



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