A Força não força #00377

O Louco entrou no mundo achando que precisava descobrir seus potenciais.
A Força descobre que também precisa fazer amizade com seus instintos.
Não basta conhecer a luz.
É preciso aprender a conversar com o leão.
E acho que há uma frase que pode se tornar uma das marcas do capítulo:
A sombra não pede para dirigir a carruagem. Pede apenas para deixar de viajar amordaçada no porta-malas.
Isso conversa diretamente com Jung.
Aquilo que negamos não desaparece.
Aquilo que integramos deixa de precisar lutar para existir.
Perceba como, sem querer, sua jornada está ficando muito coerente:
O Eremita observa.
A Roda revela padrões.
A Força integra aquilo que foi observado.
É uma progressão psicológica muito elegante, pois a verdadeira força não consiste em impor a própria linguagem. Consiste em compreender a linguagem do outro.

A consciência amadurecida observa antes de agir.

Percebe que cada ser interpreta o mundo a partir de sua própria natureza.

Há quem compreenda pelo afeto.

Há quem responda aos limites.

Há quem só aprenda pela experiência.

Há quem precise de silêncio.

Há quem só consiga ouvir quando a dor interrompe o ruído.

Nenhuma dessas linguagens é superior às outras.

São apenas formas diferentes de perceber a realidade.

Quem desconhece isso costuma repetir a mesma estratégia para todos e depois se decepciona quando ela não funciona.

Quem amadurece aprende algo diferente.

Não espera que o mundo fale a sua língua.

Aprende a escutar o idioma em que cada consciência ainda consegue compreender.

É assim também com os animais.

Quem convive com eles descobre rapidamente que gritar nem sempre comunica autoridade, assim como delicadeza nem sempre significa fragilidade.

Cada espécie responde a estímulos diferentes.

Cada uma possui seus instintos, seus medos, seus tempos e seus limites.

Com os seres humanos acontece algo semelhante.

Nem todos respondem à razão.

Nem todos respondem ao afeto.

Nem todos respondem aos mesmos argumentos.

A sabedoria não está em tratar todos da mesma maneira.

Está em reconhecer a natureza de cada encontro e encontrar a linguagem capaz de estabelecer comunicação sem violentar nenhuma das partes.

A Força nasce justamente aí.

Não quando dominamos o outro.

Mas quando compreendemos suficientemente sua natureza para não sermos dominados pela nossa.

Nesse instante, a consciência deixa de disputar poder.

Passa a cultivar presença.

E descobre que, muitas vezes, a linguagem mais transformadora não é a mais alta, nem a mais dura, nem a mais brilhante.

É simplesmente aquela que o outro ainda consegue ouvir.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Hades / Plutão senhor do submundo e do reino dos mortos #0098

Ártemis: O arquétipo da mulher independente #00107

O mito de Deucalião e a grande inundação #00103