A lição da Justiça #00373

Quando o Louco pergunta: "E se eu partir?", o Mago pergunta: "Com quais recursos?", a Sacerdotisa pergunta: "O que ainda preciso perceber?", o Imperatriz pergunta: "O que farei nascer?" , o Imperador pergunta: "Como sustentarei isso?", o Hierofante pergunta: "O que herdei?", os Enamorados perguntam: "Qual caminho assumirei?" e o Carro pergunta: "Sou capaz de permanecer fiel ao caminho que escolhi?"

Perceba que as perguntas vão ficando cada vez menos externas e cada vez mais interiores. 
Isso reforça a ideia de que os arcanos não descrevem acontecimentos, mas o amadurecimento da consciência diante da própria existência.

Aqui, na minha percepção, acontece uma das maiores mudanças de toda a jornada.
Até o Carro, a consciência ainda acredita, em algum nível, que a vida responde principalmente ao esforço.
Na Justiça ela descobre algo mais sofisticado.
A vida responde ao alinhamento.
Não basta andar.
Importa como se anda.
Não basta agir.
Importa a partir de onde se age.
É por isso que eu não escreveria a Justiça como recompensa ou punição. Isso ainda é uma leitura infantil do arcano.
Ela representa a descoberta de que a realidade possui equilíbrio próprio, independentemente da nossa opinião.

A Justiça não julga. Ela revela.

Depois que a consciência aprende a escolher um caminho e a conduzir a própria jornada, surge uma descoberta inevitável.

Toda ação produz efeitos.

Nem como castigo.

Nem como prêmio.

Mas como consequência.

No primeiro nível do jogo, a Justiça costuma ser confundida com merecimento.

A consciência pergunta:

"Por que isso aconteceu comigo?"

Procura culpados.

Procura inocentes.

Procura explicações que caibam dentro da lógica simples de recompensa e punição.

Mas a vida raramente se organiza dessa maneira.

Ela é mais complexa.

Mais silenciosa.

Mais precisa.

A Justiça não distribui favores.

Também não coleciona vinganças.

Ela apenas mostra que cada escolha desloca o equilíbrio da realidade, e que toda realidade busca naturalmente um novo ponto de equilíbrio.

Em níveis mais profundos, a consciência percebe que o primeiro tribunal nunca esteve do lado de fora.

Sempre esteve dentro.

Existe um lugar silencioso onde sabemos quando fomos coerentes.

E também sabemos quando traímos aquilo que reconhecíamos como verdadeiro.

Mesmo quando ninguém viu.

Mesmo quando fomos aplaudidos.

Mesmo quando conseguimos convencer o mundo inteiro.

Há um juiz que não se impressiona com discursos.

Apenas observa o alinhamento entre aquilo que pensamos, sentimos, dizemos e fazemos.

É por isso que a Justiça não pesa pessoas.

Pesa coerências.

No nível mais alto desse arcano, a consciência deixa de perguntar:

"O que eu mereço?"

E passa a perguntar:

"Com aquilo que venho cultivando, que frutos seriam naturalmente esperados?"

Essa pergunta muda completamente a relação com a vida.

Porque ela desloca o olhar da culpa para a responsabilidade.

Da punição para o aprendizado.

Do medo para a consciência.

Talvez essa seja a maior lição da Justiça.

Não somos condenados pelas leis da vida.

Somos continuamente educados por elas.

A realidade não está ocupada em nos castigar.

Está, o tempo todo, nos mostrando os efeitos daquilo que escolhemos semear.

E quanto mais cedo compreendemos isso, menos precisamos interpretar as consequências como injustiças.

Passamos a reconhecê-las como professores silenciosos do caminho.

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