A lição do Carro #00372

Os Enamorados resolvem uma pergunta interior: "Qual caminho escolho?"
O Carro responde outra: "Agora que escolhi, consigo permanecer em movimento?"
É um arcano muito mal compreendido quando reduzido a "vitória" ou "sucesso". O verdadeiro desafio do Carro não é chegar. É manter direção.

O Carro não ensina a correr.

Ensina a conduzir.

Depois que a consciência compreende que toda escolha inaugura uma transformação, surge um novo desafio.

Escolher foi apenas o início.

Agora será preciso sustentar a direção.

No primeiro nível do jogo, o Carro parece movimento.

Velocidade.

Conquista.

Vitória.

A impressão é de que basta acelerar para chegar ao destino.

Mas a vida logo desfaz essa ilusão.

Porque não é difícil começar.

Difícil é permanecer.

É continuar caminhando quando o entusiasmo inicial desaparece.

É manter a direção quando surgem novos caminhos aparentemente mais interessantes.

É não abandonar o próprio percurso toda vez que alguém parece estar chegando mais rápido.

Então a consciência descobre que conduzir não é acelerar.

É alinhar.

O corpo deseja uma coisa.

A emoção deseja outra.

A razão propõe uma terceira.

Os medos puxam para trás.

Os desejos puxam para frente.

As expectativas dos outros tentam assumir as rédeas.

E o condutor precisa aprender a governar todas essas forças sem permitir que nenhuma delas tome o controle sozinha.

Talvez por isso, em muitas representações do Tarô, o Carro seja conduzido por duas esfinges ou dois animais voltados para direções diferentes.

A verdadeira dificuldade nunca esteve na estrada.

Sempre esteve na condução.

Em níveis mais profundos, a consciência percebe que disciplina não é rigidez.

É fidelidade ao caminho escolhido.

Ela aprende que foco não significa ignorar todas as possibilidades.

Significa lembrar, repetidas vezes, por que escolheu esta.

No nível mais alto desse arcano, o Carro deixa de representar deslocamento.

Passa a representar coerência.

O condutor já não precisa provar que está avançando.

Seu movimento torna-se consequência natural do alinhamento entre pensamento, sentimento e ação.

Talvez essa seja a maior lição do Carro.

Não basta saber para onde se deseja ir.

É preciso tornar-se a pessoa capaz de conduzir a própria jornada.

Porque nenhuma estrada é mais difícil do que governar a si mesmo enquanto se percorre o caminho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Hades / Plutão senhor do submundo e do reino dos mortos #0098

Ártemis: O arquétipo da mulher independente #00107

O mito de Deucalião e a grande inundação #00103